Foto: Dar Tantora (reprodução)
O Dar Tantora The House Hotel ocupa trinta casas de barro e pedra erguidas no século XII na Cidade Velha de AlUla. A restauração não tentou disfarçar a idade dos muros. Conservou as proporções dos vãos, as irregularidades do barro, a penumbra dos corredores estreitos. Não existem televisores nos quartos.
Ao crepúsculo, funcionários percorrem o casario acendendo quase duas mil velas e lanternas de latão. O luxo, aqui, é o silêncio e o barro.
A Kerten Hospitality opera o hotel sob a bandeira The House Hotel, em parceria com a Royal Commission for AlUla, a comissão governamental que tutela o desenvolvimento e a preservação de todo o território. Na prática, a cadeia funciona mais como zeladora de um monumento habitável do que como dona de um resort tradicional.
O hotel ocupa a franja sul da Cidade Velha, uma antiga parada de caravanas a trezentos quilômetros ao norte de Medina. As vielas de terra batida desembocam diretamente no oásis, sem asfalto entre o hóspede e as palmeiras.
A Royal Commission for AlUla confiou a restauração à arquiteta egípcia Shahira Fahmy, três vezes fellow de Harvard e apontada pela Phaidon entre os profissionais que constroem o futuro árabe. Fahmy dispensou a prancheta convencional.
Antes de traçar qualquer planta, percorreu as ruínas como agrimensora, catalogando frestas de janela, camadas de reboco e vestígios de pigmento ao longo de onze mil metros quadrados, mais de dez por cento da vila histórica. A partir desse inventário, operou por subtração, eliminando camada após camada até restar apenas a ossatura mínima capaz de abrigar o hóspede sem desfigurar o tecido secular. Não houve designer de interiores separado. Barro, pedra e madeira brutos constituem, por si mesmos, toda a paleta estética dos ambientes.
Pedra bruta compõe a base portante dos pisos térreos, enquanto terra crua configura as paredes superiores, reproduzindo a hierarquia estrutural que os construtores medievais já praticavam. Os tijolos foram moldados no próprio canteiro, com solo local, palha e água, já as vigas são de Athl, a tamargueira nativa do vale, e os forros de folhas de palmeira trançadas à mão.
Para orientar essas técnicas, Fahmy convocou Mounir Neamatalla, fundador da Environmental Quality International e seu parceiro em projetos anteriores de hospitalidade em terra crua no deserto ocidental egípcio. Mestres artesãos viajaram do oásis de Siwa para conduzir a moldagem dos blocos e a tecelagem das fibras de palma, devolvendo a AlUla uma perícia no manuseio do adobe que o vale havia perdido durante o êxodo para bairros com eletricidade.
As paredes internas guardam um registro inesperado da vida comunitária. As pinturas murais visíveis nos aposentos e passagens não nasceram de um projeto decorativo contratado.
A tradição local prescrevia que os vizinhos as executassem como presente nupcial, adornando a morada dos recém-casados com motivos de flora, fauna, caligrafia árabe e símbolos de fartura em pigmentos minerais vermelhos e azuis. A equipe de Fahmy consolidou essas composições sem retocar as fissuras do tempo no reboco, recusando qualquer acréscimo cenográfico para simular antiguidade.
A Creative Dialogue conduziu a curadoria artística dos espaços comuns. Entre as peças selecionadas, destacam-se instalações de Gregory Chatonsky que incorporam a técnica beduína do Sadu, bordado tradicional executado com pelo de camelo tingido e tecido em padrões geométricos.
Jovens pintores de AlUla assinam trabalhos contemporâneos nos corredores, prolongando nas superfícies a tradição mural que os vizinhos já praticavam séculos atrás. A Madrasat Addeera, escola vizinha dedicada à transmissão dos ofícios artesanais para contextos atuais, forneceu boa parte do mobiliário e dos elementos decorativos dos aposentos, além de manter obras de suas alunas em mostra permanente pelo hotel. O dinheiro investido nos interiores permaneceu, assim, no próprio vale.
Os trinta aposentos ocupam casas de barro e pedra erguidas no século XII. Designadas pelo termo árabe dars, as unidades preservam a divisão vertical histórica da comunidade, reservando o térreo para o convívio diurno e o primeiro andar para o sono. Essa lógica dispensa divisórias contemporâneas e respeita os vãos originais de pedra.
Quatro categorias escalonam o espaço:
O destaque visual recai sobre o Dar Al Hareer, único dotado de terraço panorâmico com leitos ao ar livre diante do oásis.
O conforto térmico apoia-se em recursos passivos. Janelas instaladas em alturas desencontradas forçam a circulação constante do ar. A abertura superior expele a massa quente, enquanto o vão inferior capta a brisa úmida gerada pela vegetação do vale. As frestas da maioria dos aposentos voltam-se para o casario de barro. Apenas as suítes com terraço descortinam as copas do palmeiral e as escarpas de arenito avermelhado.
A infraestrutura impõe sobriedade monástica. Não há televisores nos quartos e a rede elétrica limita-se a duas tomadas funcionais, dimensionadas para carregar o celular e ligar aparelhos pessoais no banheiro. Ao crepúsculo, funcionários acendem quase duas mil velas e lanternas de latão pelos corredores.
O repouso dispensa telas. Vitrolas analógicas tocam seleções de vinil sob o aroma de resinas de mirra e olíbano, oferecidas no momento da chegada para perfumar a noite e antecipar os óleos terapêuticos do spa.
O restaurante Joontos ocupa o pátio central a céu aberto, e o nome já anuncia a filosofia: derivado do castelhano juntos, o espaço foi concebido para pratos de partilha. O chef catalão Jaume Puigdengolas, estrelado pelo Guia Michelin, conduz uma cozinha de fogo vivo e lixo zero, onde as brasas de lenha substituem os queimadores e nada é desperdiçado.
Os ingredientes percorrem distâncias mínimas. As hortas vizinhas fornecem frutas cítricas, romãs frescas, tâmaras nativas, ervas aromáticas e raízes que alimentam uma seleção de pratos sauditas e regionais. Vale a pena chegar com apetite para a pasta de azeitonas pretas fermentadas, cuja intensidade mineral surpreende logo na entrada, e para a muhammara, mergulho levantino de nozes com pimentão vermelho e melado de romã. Pela manhã, mulheres de AlUla ocupam o pátio com chapas convexas incandescentes, assando folhas finíssimas de pão saj diante dos hóspedes.
No alto do casario ergue-se o Maqha, um café ao ar livre espalhado por telhados escalonados de barro. Acomodado sobre tapetes tecidos à mão e almofadas rasteiras, o visitante alcança as muralhas rochosas por completo, sem nada obstruir o horizonte.
O país não permite bebidas alcoólicas, e a carta abraça esse limite com naturalidade, apoiada em águas florais, infusões de ervas silvestres e no café árabe temperado com cardamomo fresco.
O terceiro espaço do hotel é o Cigar Oasis, um lounge noturno aberto das 19h às 23h e curado pela Manuh Cigars. Num país sem bares, charutos artesanais, chás especiais e mocktails preenchem o papel que uma carta de drinques ocuparia em outro contexto. Doces locais completam a mesa.
A piscina do hotel contraria qualquer paralelo com os grandes parques aquáticos da região. Trata-se de um espelho d’água estreito e retilíneo, encaixado no terraço, com borda infinita que se projeta sobre o topo das tamareiras. O tanque foi desenhado para banhos contemplativos em silêncio absoluto, servindo como alívio térmico diante do horizonte arenoso.
Os tratamentos são realizados nos próprios quartos, com produtos da linha MZN desenvolvida exclusivamente para o hotel. A área de bem-estar reúne sessões diárias de ioga — incluindo aulas ao nascer do sol e práticas de pilates duas vezes por semana —, além de meditação guiada e caminhadas contemplativas pelo trilho patrimonial do oásis. Uma sala de condicionamento físico completa a estrutura.
AlUla Old Town funcionou historicamente como entreposto fulcral para as caravanas que transportavam mirra e especiarias pelas rotas milenares da Arábia. A poucos minutos dali despontam as fachadas monumentais de Hegra, antiga cidade nabateia entalhada em rocha arenítica e primeiro sítio da Arábia Saudita tombado pela UNESCO. Caminhar por essa paisagem exige curiosidade arqueológica e disposição para compreender o valor das cidades ancestrais de barro.
O próprio batismo do hotel homenageia a Tantora, um antigo muro de pedra na borda leste da Cidade Velha que funciona como relógio de sol. Por gerações, esse relógio de sol vernacular ditou o calendário comunitário, indicando o solstício de inverno e arbitrando a partilha das águas subterrâneas de irrigação entre os cultivadores do oásis. A hospedagem organiza percursos a pé com contadores de histórias locais e deslocamentos pela região em veículos vintage restaurados.
Nos quartos, desde outubro de 2025, peças da joalheira italiana EÉRA compõem uma coleção cápsula inspirada na paisagem de AlUla, com tons de areia e referências às formações rochosas do vale. O paradoxo não passa despercebido. O hotel que dispensou televisores e limitou as tomadas a duas por aposento resolve a compra das joias por QR code, direto para o e-commerce da marca em Milão.
Com crianças pequenas, pense bem antes de reservar. O hotel é uma ruína medieval restaurada, com degraus sem corrimão, soleiras de pedra alta, terraços abertos e quase duas mil velas acesas toda noite. Não é o tipo de lugar onde dá para relaxar com um bebê no colo. Já com filhos mais velhos a história muda, e o hotel até tem uma suíte de dois quartos, o Dar Al Oud, feita exatamente para grupos de quatro.
Sim, mas com ressalvas. A terra crua veio das próprias ruínas, o que dispensou cimento e aço. A cozinha do Joontos abastece da horta vizinha. A ventilação é cruzada, sem ar-condicionado. Na temporada fria, de outubro a março, o barro grosso e os ventiladores de teto resolvem bem.
O problema aparece no verão, quando o vale passa dos quarenta e cinco graus e o hotel praticamente fecha. Chegar e sair também depende de carro a combustão, não tem como escapar disso no vale. O Dar Tantora é um dos projetos de reabilitação vernacular mais sérios da região, mas impacto zero ele não é.
O Dar Tantora é estruturalmente inacessível para pessoas em cadeira de rodas ou viajantes com restrições motoras severas. A conservação estrita do patrimônio histórico do século XII inviabilizou a instalação de elevadores ou rampas sem descaracterizar as ruelas originais de cascalho e terra batida. As entradas têm batentes de pedra elevados para deter a areia, e o acesso aos dormitórios exige subir escadas estreitas de adobe. Para quem depende de cadeira de rodas, a estrutura simplesmente não funciona.
É fácil saber para quem este hotel foi feito. Se você viaja para ler, olhar paredes de barro, entender onde está e ouvir silêncio de verdade, vai adorar. Se precisa de TV, iluminação forte e wi-fi sem falhas para trabalhar, vai sofrer.
O melhor aviso sobre o lugar é o que acontece de manhã. Não tem campainha, não tem notificação, não tem televisor ligando sozinho. O que acorda é a luz entrando pelas frestas nas paredes de barro e os pássaros lá fora no pátio, nos galhos das acácias do oásis. O hotel inteiro foi desenhado para que isso seja possível.
À primeira vista, o Desert Rock parece uma anomalia na paisagem. Em vez de erguer…
As construções de um lugar refletem sua história, cultura, religiosidade e até mesmo as mudanças…
O La Dolce Vita Orient Express Roma a Istambul é uma opção de viagem para…
Os passeios de arquitetura em São Paulo revelam diferentes faces da cidade, desde a valorização…
O palácio da foto abaixo é do Palazzo Corner della Ca' Granda. Ele dá uma…
É fácil cair na tentação de imaginar Mykonos como um único cartão-postal repleto de casinhas…