Cap Ferret

Hôtel Villa Colette e o teatro de memórias de Philippe Starck no Cap Ferret

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Hôtel Villa Colette
Onde fica: 39 Bd de la Plage, Lège-Cap-Ferret, França — de frente para a Bacia de Arcachon, a minutos
do Farol do Cap Ferret
Preços: a partir de €620 (diária/casal)
Clique aqui para ir direto aos preços e disponibilidade dos quartos.

A viagem de um arquiteto ou designer de interiores dificilmente vai envolver só o descanso, já que não se abandona aa vocação durante a viagem. Longe disso, a viagem vira uma extensão direta da prancheta. Você vira uma esponja, absorve tudo e esse tudo vira matéria para seus projetos.

E a melhor forma de expandir o repertório espacial e aprender a criar espaços que acolham de verdade é fazer pesquisa de campo, vivenciando projetos que desafiam o óbvio.

O recém-inaugurado Hôtel Villa Colette, o primeiro cinco estrelas da península de Cap Ferret, na costa francesa, é exatamente esse tipo de lição prática.

Philippe Starck e o hoteleiro Laurent Taïeb criaram uma narrativa espacial que nos transporta para uma ficção habitável: a residência de veraneio de uma atriz dos anos 1930.

Continue a leitura para entender como as escolhas de paleta, a iluminação cenográfica e o conceito de hospitalidade-teatro se unem para fazer do Villa Colette um caso prático de como dar alma aos seus projetos.

Foto: Hotel Villa Colette (reprodução)

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Foto: Hotel Villa Colette (reprodução)

O hotel como palco: A narrativa da atriz fictícia dos anos 1930

O diferencial do Hôtel Villa Colette veio bem antes da decoração. Ainda que tenha ganho a forma de um hotel boutique, o projeto foi conduzido e concebido como residência imaginária de uma grande atriz francesa.

A pauta conceitual de Philippe Starck foi desenvolvida ao lado do empresário e hoteleiro Laurent Taïeb e convida o hóspede a habitar uma ficção de “nostalgic happiness” — expressão do próprio Starck — assim que cruza a soleira.

A história é a seguinte:

  • Ao final de sua carreira nos palcos e no cinema parisiense, essa atriz abandona seu apartamento na Avenue Foch para se recolher em uma casa simples perto da praia de Cap Ferret, em uma vila de ostricultores.
  • Lá, ela repinta os cômodos e hoje vemos essa pintura anos depois, em tons suaves e desgastados, o rosa pó desbotado e o amarelo limão muito pálido;
  • Ela vai espalhando pela casa memórias de uma vida inteira no teatro. Estamos falando de Buquês de flores de papel, almofadas com estampas geométricas, tecidos drapeados em franjas e até mesmo um piano Klein dos anos 1950, feito de madeira fina.

A ficção é construída objeto por objeto, tecido por tecido, e o hóspede que entra nesse espaço se torna, sem perceber, um personagem secundário dessa história.

Foto: Hotel Villa Colette (reprodução)

Nesse cenário, você se vê participando de rituais desenhados para desacelerar, como o cheiro de café que chega do bar bem cedinho, o som do piano ou a luz caminhando na parede rosa ao longo do dia.

O aconchego é mantido através de texturas envolventes, como a maciez de um sofá de bouclé bege com banquetas esculpidas em madeira e almofadas com estampas artísticas e abstratas.

Cada um desses rituais, além de aconchegar e fazer parte da experiência de hospedagem, ancora a ficção. São detalhe que vão agregando densidade à história, dando a sensação de que o espaço tem um passado. Essa riqueza conceitual segue aos banheiros através do estilo da cuba esculpidas em mármore, oz azulejos, os tipos de luminárias e até mesmo na moldura que a janela entrega.

Foto: Hotel Villa Colette (reprodução)

Como o design da Villa Colette acumula tempo e alma

Projetar sob a ótica de uma residência habitada exige construir camadas de história que se sobreponham sem se anular.

O Hôtel Villa Colette faz isso quase como uma brincadeir. A todo canto você encontra vestígios de décadas passadas convivendo com ferramentas do presente, e o resultado é um espaço impossível de ser copiado.

É uma coisa que sempre bato na tecla, o valor de um espaço não está numa fórmula simples, mas no valor dos significados que se acumulam para a pessoa que habita o espaço.

Foto: Hotel Villa Colette (reprodução)

No lobby, nos quartos e nos corredores, Starck espalhou “fragmentos de vida” que sustentam a narrativa: além do piano e do fogão a lenha de metal escuro, retratos emoldurados com elegância clássica cobrem as paredes em composições que parecem espontâneas.

Várias fotografias de paisagens de Cap Ferret foram selecionadas e retocadas com inteligência artificial. Elas adornam inúmeros espelhos e criam uma versão onírica da região. Você vive a lembrança.

Em vez de uma hospedagem de tendência recém-saída da fábrica, o projeto investiu em materiais que envelhecem com dignidade como o mogno (presente nas cabeceiras), o mármore com veios rosa e cinza nos banheiros, rattan nos terraços. O efeito gráfico é perceptível nos detalhes externos, note como a sombra listrada do pergolado se projeta sobre a parede bege rugosa, emoldurada pelo contorno de tijolos vermelhos e encimada por uma arandela náutica de metal escovado.

Foto: Hotel Villa Colette (reprodução)

É um refresco para os olhos. Enquanto muitos hotéis continuam investindo em revestimentos sintéticos, estéreis, este aqui trabalha com elegância o valor tátil e emocional de materiais naturais e duráveis

Foto: Hotel Villa Colette (reprodução)

Um ambiente com história reduz a ansiedade e cria familiaridade.

E essa familiaridade é o que prepara o hóspede para a experiência mais dramática do hotel: a passagem do interior denso e intimista para a claridade radical da costa atlântica.

A atmosfera de luz e sombra no Hôtel Villa Colette

A iluminação de um espaço de alto padrão não existe para “clarear o ambiente”. Ela existe para regular o humor e no Hôtel Villa Colette, essa regulação é orquestrada com uma consciência teatral que vai da penumbra de um boudoir ao teto completamente aberto para as estrelas.

No restaurante Here and Beyond, liderado pelo chef Benjamin Six, o elemento arquitetônico central é um teto de vidro retrátil que transforma completamente a experiência ao longo do dia. De manhã, a luz inunda o pátio e acentua o brilho das pratas. À noite, o teto se abre e os hóspedes jantam sob o céu estrelado.

Foto: Hotel Villa Colette (reprodução)

Já no Le Bar, a iluminação cenográfica funciona de forma oposta, com arandelas de espelho refratando a luz das lâmpadas em jogos de sombra, te chamando para desacelerar mais ainda.

O lounge bar funciona como o refúgio máximo do hotel. Ele é banhado por uma iluminação dourada que emana de cúpulas de tecido e do fogo da lareira, acolhendo em poltronas e sob um teto elegante.

Foto: Hotel Villa Colette (reprodução)

Essa oscilação entre a escala íntima do ambiente particular e a escala aberta do pátio reflete, em miniatura, a própria geografia de Cap Ferret, que é uma faixa de terra entre o Atlântico selvagem e a Bacia calma de Arcachon. É uma região em que o contraste entre abrigo e imensidão é parte da experiência.

A experiência de Cap Ferret

No extremo da península da Gironda, onde o oceano Atlântico encontra a bacia protegida de Arcachon, Cap Ferret vive à margem do tempo.

Inclusive, é o lugar onde Starck mora. Ele mesmo já disse em certa entrevista que ali é um lugar mágico que incorpora perfeitamente o espírito francês. O hotel foi projetado para honrar essa ideia.

Foto: Hotel Villa Colette (reprodução)

O Hôtel Villa Colette não tem piscina de azulejo azul e se volta inteiramente para a Bacia (Bassin) de Arcachon. Aliás, o terraço onde é servido os lanches da tarde — possivelmente um crepe preparado na hora, acompanhados de rosé** — está de frente para a água.

É a maré que dita o ritmo da tarde, não a fila de espreguiçadeiras à beira da piscina. A abertura para a paisagem é celebrada em varandas altas e bem posicionadas. Nelas, mesas de metal e cadeiras de vime oferecem o suporte perfeito para contemplar a baía calma emoldurada pelas copas dos pinheiros.

Foto: Hotel Villa Colette (reprodução)

Para explorar o destino como um verdadeiro ferretcapien, o hotel organiza passeios de bicicleta pelos pinhais até a vila de L’Herbe, e expedições em pinasses (os barcos tradicionais da região) até a Dune du Pilat, a maior duna de areia da Europa.

A parada obrigatória no percurso é a Cabane Hortense, uma das cabanas de ostras à beira da baía, onde as ostras chegam da água ao prato em menos de uma hora.

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Foto: Hotel Villa Colette (reprodução)

O território, afinal, é parte indissociável do projeto. O design da Villa Colette não tenta substituir a natureza com confortos artificiais. Ele a enquadra, evidencia e torna acessível para quem sabe olhar.

Foto: Hotel Villa Colette (reprodução)

Ficha técnica

Onde fica o Hôtel Villa Colette

39 Bd de la Plage, Lège-Cap-Ferret, França — de frente para a Bacia de Arcachon e a 12 minutos a pé do Farol do Cap Ferret

Preços de diárias no Hôtel Villa Colette

Você encontra diárias a partir de €620 (para casal, no quarto clássico com jardim), mas chegando a 710 no quarto Deluxe com vista para a baía. Todos os quartos tem aproximadamente o mesmo tamanho. Preços apurados em Julho/2026.

Acessibilidade

O hotel dispõe de quartos e banheiros adaptados para pessoas com mobilidade reduzida (PMR), percursos acessíveis nas áreas comuns e vagas de estacionamento reservadas. Recomendamos confirmar a disponibilidade dos equipamentos específicos diretamente com o hotel antes da reserva

Responsáveis pelos interiores e conceito do Hôtel Villa Colette

O arquiteto e designer Philippe Starck em parceiria com o empresário Laurent Taïeb, da Utopik Collection.

Quantas acomodações tem o Hôtel Villa Colette

28 quartos e suítes com jardins privativos (térreo) ou varandas com vista para a baía ou o pinhal (primeiro andar). Suítes Prestige com 55m²

Opções de gastronomia e bar

Restaurante Here and Beyond (com chef Benjamin Six, de cozinha internacional com influências asiáticas, sob claraboia de vidro retrátil) e o Le Bar (piano vintage, lareira, coquetéis com ingredientes locais).

    O valor de habitar uma ficção

    Recomendo o Hôtel Villa Colette como uma experiência incrível tanto pela qualidade da hospitalidade, quanto pelo projeto que prova que a excelência do design não está na coordenação perfeita de superfícies, mas na capacidade de fazer o espaço narrar.

    A ficção da atriz dos anos 1930 que se recolhe ao litoral não é um artifício de marketing, ela é o próprio projeto. Cada objeto, cada paleta, cada jogo de luz foi escolhido para sustentar essa história e transformar isso em uma habitação.

    Se você planeja passar alguns dias na região de Lège-Cap-Ferret e Gironda, vale consultar tarifas e quartos disponíveis para a próxima temporada no Hôtel Villa Colette. Uma base confortável e bem projetada muda a qualidade de toda a pesquisa de campo.

    referências

    *Atenção: Preços tomam como base a data de redação deste conteúdo. Podem sofrer alterações a qualquer momento e sem aviso prévio.

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    Claudia Vianna Birolini

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