Ao se perguntar o que fazer em Recife, o frevo e as belas praias são as primeiras imagens mentais que aparecem. A capital de Pernambuco leva o rótulo de “Veneza brasileira” e este apelido refere-se à série de canais e pontes que costuram a cidade, criando trajetos fluviais que rearranjam a paisagem urbana.
Mas, o que de fato torna a cidade única é o rico mosaico de estilos e estéticas encontradas por toda capital. É a convivência entre o urbanismo do período holandês e os edifícios modernistas do século XX que dão à cidade sua identidade singular.
Ao mergulhar nas opções de o que fazer em Recife, os olhos logo voltam ao Recife Antigo. Considerado o núcleo urbano da capital, a região se firmou como referência técnica para o patrimônio arquitetônico colonial.
A Praça do Marco Zero, hoje revitalizada, ainda funciona como marco urbano de partida: todas as distâncias da cidade são medidas a partir dali. Historicamente, foi o núcleo da cidade original — uma estreita lingueta de terra entre rios e mar que foi ampliada com aterros ao longo dos séculos. Esse processo de aterrar áreas alagadiças permitiu a abertura de vias regulares e a implantação de canais, resultando no caráter singular da malha urbana do Recife.
Ao caminhar pela Rua do Bom Jesus (antiga Rua dos Judeus), é possível ver casarões que combinam traços holandeses com portugueses. O urbanismo holandês, consequência da ocupação de Maurício de Nassau no século XVII, introduziu um sistema de lotes alinhados em quadras estreitas, com vias paralelas à margem do rio Beberibe. Casas geminadas surgiram pela necessidade de aproveitar espaço limitado, e sobrados altos substituíram construções mais baixas, como reflexo da densidade populacional imposta pelos colonizadores.
A Sinagoga Kahal Zur Israel, na Rua do Bom Jesus, é a primeira sinagoga das Américas e um dos marcos históricos da cidade. Em escavações arqueológicas conduzidas pela UFPE e o IPHAN, descobriu-se um mikvê feito de pedras empilhadas sem argamassa e com 1,5 m de profundidade. Esse poço ritual de purificação judaica foi validado por especialistas rabínicos e confirma a prática do culto de forma precisa no século XVII. A planta interna da sinagoga, apresenta salão de oração com disposição simétrica do mobiliário.
No Recife Antigo, muitos sobrados coloniais utilizam taipa de pilão ou pau a pique, técnicas que combinam madeira e barro. O pau a pique, por exemplo, funciona com vigas de madeira entrelaçadas e preenchidas com barro, gerando paredes resistentes e com térmica agradável. Em edificações mais robustas, apareceu a alvenaria com tijolos de adobe ou pedra, permitindo construções mais amplas. Elementos de cantaria (pedras esculpidas artesanalmente), como cornijas e molduras de janelas, também aparecem em sobrados mais ricos e salas públicas, sinal de influência portuguesa e status social.
Visitar o Marco Zero, caminhar pela Rua do Bom Jesus e conhecer a Kahal Zur Israel possibilita entender como o urbanismo do século XVII se entrelaça com construções sólidas e funcionalidade. Você pode reservar seu passeio aqui.
Quando se busca o que fazer em Recife, a Oficina Francisco Brennand surge como parada obrigatória. Reaproveitando estruturas fabris de forma inteligente, o museu traduz uma arquitetura adaptativa ao desdobrar antigas instalações de uma fábrica em galerias, pátios e jardins. A base arquitetônica original, ainda visível, delineia o contorno da antiga olaria São João; sobre ela, cresceu um complexo que abriga esculturas, murais e ateliês com circulação fluida, sem perder a sensação de intimidade criativa.
“reunir, num só lugar, toda magnitude da arte antiga, que jamais separou a pintura da arquitetura nem da escultura.”
Francisco Brennand
Mesmo quem não é especialista identifica o impacto: Burle Marx projetou os jardins da Oficina, unindo espécies tropicais em formas livres que respiram junto às esculturas cerâmicas. O paisagismo de Marx (jardins com plantas regionais dispostas em composições naturais) realça a monumentalidade das obras, promovendo diálogo entre arte e natureza.
Já o Instituto Ricardo Brennand, erguido como um “castelo” contemporâneo, é outra construção singular: abriga cinco importantes estruturas museais (entre elas o Museu Castelo São João) em estilo que remete ao gótico-tudor, mas executado com infraestrutura moderna. O edifício utiliza distribuidores internos e áreas de convivência que valorizam a contemplação de objetos históricos. Sua curadoria reúne pinturas de Frans Post e uma extensa coleção de armaria medieval e renascentista.
Para quem deseja aproximar tradição ceramista e design contemporâneo, uma excursão de meio dia funciona perfeitamente: comece pela Oficina Francisco Brennand, caminhe pelos pátios internos e jardins de Burle Marx; siga até o Instituto Ricardo Brennand, explore o castelo, a pinacoteca e os jardins com esculturas ao ar livre; em seguida, finalize no Parque das Esculturas, um museu a céu aberto com 90 peças monumentais instaladas sobre um arrecife natural em frente ao Marco Zero, incluindo a Torre de Cristal, obra de cerâmica e bronze de 32 metros.
A antiga fábrica de tijolos (Oficina Francisco Brennand), hoje aberta à visitação, é um exemplo de arquitetura adaptativa (quando um espaço industrial ganha nova vida como equipamento cultural). Já no Instituto fundado por Ricardo Brennand, as exposições são organizadas com curadoria que considera o impacto visual, a circulação do público e a relação entre as obras.
Essa combinação de espaços evidencia que Recife não esconde sua arte em museus fechados; ela está desafiadoramente integrada ao desenho urbano e à paisagem. A visita aos espaços culturais fundados pelos Brennand, não exige conhecimento prévio pois conjuga técnica e emoção.
A Capela Dourada, inaugurada em 1697 e concluída aproximadamente em 1724, representa o ápice do barroco pernambucano. Cada centímetro interno é coberto por talha dourada (madeira entalhada recoberta por finas lâminas de ouro de 22 quilates), criando uma decoração rica e cenográfica típica da estética barroca portuguesa.
Os painéis do teto, mostrando santos da Ordem Franciscana e virtudes cristãs, tem autoria atribuída a José Pinhão de Matos. Esses elementos visuais dialogam com a talha e os azulejos portugueses dispostos nas laterais, formando uma composição que equilibra escultura, pintura e revestimento cerâmico.
A técnica de talha, executada na capela-mor, por Antônio Martins Santiago em 1698, exige alta precisão: esculturas detalhadas (nichos, colunas retorcidas, frisos e anjos) são esculpidas em cedro, depois douradas em relevo profundo. Toda a ornamentação é projetada para criar efeitos de luz e sombra que chamam atenção para altares e retábulos.
O Convento e Igreja de Santo Antônio, anexo à capela, complementa a experiência barroca. O interior apresenta painéis de azulejos portugueses do século XVIII, teto em abóbada de berço e altares laterais em talha rococó mais leve e colorida. A nave única e o púlpito em madeira ricamente trabalhada reforçam o caráter de verticalidade e drama litúrgico típico do barroco tardio.
Estilisticamente, o conjunto exibe soluções herdadas do barroco joanino português — talhas exuberantes, pinturas integradas e azulejaria alinhada a códigos visuais lusitanos. As pinturas parietais respeitam a estrutura dos caixotões do teto, enquanto o arco cruzeiro conecta a Capela Dourada à nave principal por uma grade trabalhada em ferro que marca passagem física e simbólica.
A Capela Dourada e o Convento de Santo Antônio formam uma unidade arquitetônica que ilustra com precisão técnica a evolução do barroco no Recife.
Ao considerar o que fazer em Recife, vale incluir experiências em ambientes que combinam arquitetura com gastronomia. Entre os pontos turísticos do Recife, o Restaurante Leite e o La Casa ilustram como o design e a comida se entrelaçam.
No casarão da Praça Joaquim Nabuco, o Restaurante Leite (fundado em 1882) preserva o ar aristocrático original: piso em tacos de madeira, cristais Baccarat, prataria Christoffle e toalhas de damasco importadas, todos elementos que evocam a elegância da Belle Époque. O cardápio, fiel à cozinha portuguesa, destaca-se com pratos clássicos como bacalhau e a tradicional cartola. O espaço conjuga requinte histórico a uma atmosfera autêntica e formal.
Onde fica: Praça Joaquim Nabuco, 147 – Santo Antônio
Site: @restauranteleite
Faixa de preço: $$$$
Acessibilidade: Não é acessível para cadeirantes.
No bairro de Casa Forte, o La Casa fica encravado nos jardins do Solar Latache Pimentel, um casarão do século XIX com arquitetura histórica marcante. O restaurante se integra ao verde preservado do palacete: mesas distribuídas em varanda e gramado, com mobiliário simples que respeita o entorno, sem competir com a atmosfera original. O cardápio traz frutos do mar e carnes bem executadas — pense num risoto de camarão e tornedor de filé complementados por drinques autorais como o “Bella” (vodka com pitaya e a surpresa do pirulito de uvas). A proposta é moderna, mas a atmosfera confirma o papel ativo da arquitetura histórica no projeto gastronômico.
Onde fica: Av. Dezessete de Agosto, 1893 – Parnamirim
Site: @lacasarecife
Faixa de preço: $$ – $$$
Acessibilidade: Não há acessibilidade para cadeirantes.
Incluir Recife em um roteiro com Olinda traz uma continuidade cultural rica e coerente. Os pontos turísticos do Recife e de Olinda se complementam em estilo, cor e história e há uma excursão oferecida pela Viator que articula justamente esses elementos.
O passeio une Olinda e o Instituto Ricardo Brennand em Recife, conectando dois polos culturais em um roteiro de cerca de 5 horas. Em Olinda, visita-se igrejas barrocas, ateliês e mirantes, como o Alto da Sé e o Mosteiro de São Bento. Depois, o tour segue para o Instituto, um castelo-museu com jardins formais e a maior coleção de obras de Frans Post, além de armaria europeia. A excursão inclui transporte, entrada e guia multilíngue. É uma forma prática de conhecer dois ícones da região em um mesmo dia, com foco em arte, história e experiências sensoriais.
Explorar o que fazer em Recife vai muito além dos pontos turísticos tradicionais. Da Oficina Francisco Brennand ao Instituto Ricardo Brennand, passando pelo Jardim Burle Marx e experiências gastronômicas como o La Casa, a cidade revela uma cena cultural pulsante e sofisticada. Recife e Olinda, quando visitadas em conjunto, formam um roteiro contínuo de arte, arquitetura e memória em permanente transformação.
Não deixe de fazer sua reserva e acompanhar outros posts da Dona Arquiteta.
Leia mais:
• Instituto Ricardo Brennand de Recife: uma das maiores coleções do Brasil
• Turismo rural: 7 hotéis em fazendas históricas no Brasil
• Guia de Arquitetura no Rio de Janeiro
REFERÊNCIAS:
referências
*Atenção: Preços tomam como base a data de redação deste conteúdo. Podem sofrer alterações a qualquer momento e sem aviso prévio.
Quatro hotéis com projeto com alma, arquitetura com partido e história para contar — os…
Viena é famosa por ser a capital da música, no entanto, essa cidade também deveria…
Destinos turísticos na Oceania não costumam estar no radar dos brasileiros. Por isso, ao considerar…
Hotel Viura de Álava, na EspanhaOnde fica: Herrería 19A — Villabuena de Álava, Álava -…
Viena é uma cidade que respira história, arte e música. A antiga capital do Império…
Hotel El CorazónOnde fica: Paseo Kuka entre Jurel y Chac-Chi - Isla HolboxPreços: a partir de US$…