Tem uma semana no ano em que desaparecer não é fuga. É programa. A Páscoa é o feriado que a cultura inteira conspira para que você suma em busca de um refúgio.
Escritório fecha, agenda esvazia, e o único arrependimento possível é chegar na segunda-feira sem nada para contar.
O problema é que hotel genérico produz Páscoa genérica.
Os refúgios desta lista foram escolhidos porque cada um tem história suficiente para que o lugar ainda esteja na sua cabeça semanas depois. Design com intenção, arquitetura com partido, e aquela qualidade rara de fazer o tempo passar diferente.
Bowi Hotel Conceito: design contemporâneo no coração colonial de Tiradentes

Tiradentes é uma cidade de pedra, cal e século XVIII. O Bowi Hotel Conceito chegou em janeiro de 2026 sem pedir licença. Numa das cidades mais protegidas de Minas Gerais, o projeto assinado pela L-Ara Arquitetura optou pela ruptura em vez da mimese. O resultado é um hotel de oito suítes que se recusa a fingir que nasceu no período colonial.
Por dentro, o café da manhã é à la carte, a adega é climatizada, e a escala de oito suítes a doze minutos a pé do Centro Histórico garante que você nunca vai disputar espaço com ninguém. Do deck privativo, a Serra de São José preenche o horizonte sem competição.


O vocabulário é minimalista de precisão: cuba esculpida em granito preto absoluto contra parede em tom areia, espelho circular retroiluminado, forro em régua de madeira nas suítes com fechamento total em vidro.
Para a Páscoa em Tiradentes, o Bowi entrega o que a cidade raramente oferece. Silêncio de design.
Onde fica: Rua Maria Eugenia Barbosa, 116 – Centro Histórico – Tiradentes – MG
Acessibilidade: O centro histórico de Tiradentes é pavimentado com pedras irregulares, o que torna a locomoção bastante difícil para pessoas com mobilidade reduzida; o hotel não divulga adaptações específicas para acessibilidade.
Reservas em: Booking.com
Casa Marambaia: a Páscoa entre os jardins que Burle Marx plantou

Em algum momento dos anos 1950, Roberto Burle Marx chegou a uma fazenda nos arredores de Petrópolis a convite de Odette Monteiro, mecenas carioca e primeira proprietária da Fazenda Marambaia desde 1947, e plantou um jardim. O casarão ficou fechado por décadas, frequentado pela alta sociedade carioca e por celebridades internacionais. Em 2021, abriu como hotel boutique. O jardim ainda está lá.
Além disso, há um painel de Burle Marx em processo de restauração nas dependências da propriedade, descrito como uma de suas últimas obras inauguradas em vida.
O Sítio Roberto Burle Marx — propriedade em Barra de Guaratiba, no Rio de Janeiro, onde o paisagista viveu e trabalhou — é Patrimônio da Humanidade pela UNESCO desde 2021. Os jardins da Casa Marambaia não são o bem tombado, mas foram projetados pelo mesmo Burle Marx e ainda guardam o DNA do seu trabalho. Hospedar-se na Casa Marambaia é dormir dentro de uma obra que não foi feita para ser hotel. E isso faz toda a diferença.


O projeto de interiores do Empório Maria Maria trabalha com tensão temporal. Pelego sobre couro contemporâneo no salão histórico de 1947,
galhos secos em ambiente terracota,


poltronas azuis vibrantes em quarto colonial.
As villas novas têm deck privativo e banheira externa com vista para o lago e as montanhas.



O restaurante Bonaccia Osteria é assinado pelo chef Rafa Costa e Silva, duas estrelas Michelin. Para a Páscoa, o cenário é este: bromélias de Burle Marx do lado de fora, pasta artesanal feita na casa do lado de dentro.
Onde fica: Rua Dr. Agostinho Goulão, 2098 – Corrêas – Petrópolis – RJ
Acessibilidade: A propriedade fica em terreno rural de 250 hectares com área natural e caminhos irregulares, sem informações divulgadas sobre adaptações para cadeirantes; o acesso de carro até o hotel é por estrada asfaltada. Aceita animais de estimação de pequeno e médio porte nas suítes (não nas villas).
Reservas em: Booking.com
Botanique Hotel: o refúgio de Páscoa que é um manifesto em ardósia brasileira

Ricardo Semler, o empresário que ensinou o mundo a trabalhar diferente com a Semco, passou cinco anos construindo o hotel que provaria, de uma vez por todas, que luxo brasileiro não precisa de importação. Inaugurado em 2012 em Campos do Jordão, o Botanique é uma declaração de amor ao Brasil construída tijolo por tijolo, ou mais precisamente, ardósia por ardósia.
A arquitetura é de Cândida Tabet, cujo projeto foi publicado no ArchDaily, a maior plataforma de arquitetura do mundo. A escada escultural em madeira de demolição, no pé-direito duplo do lobby, concentra em si o DNA do projeto: robusto, autoral, insubstituível.
Cada material tem origem documentada e intencional. A ardósia chocolate vem de uma única mina que só produz a cor correta de 17 em 17 meses; as vigas têm 120 anos e foram recuperadas de fazendas abandonadas do interior de Minas Gerais; as pedras de três toneladas foram retiradas do rio local.
O spa é 100% brasileiro, desenvolvido sem consultores externos, com xamãs, aromaterapistas e professores de física. A biblioteca tem 400 títulos exclusivamente de autores brasileiros.
O hotel é membro Relais & Châteaux e tem 1 Chave no Guia Michelin. Para quem quer uma Páscoa em Campos do Jordão sem os hotéis de estilo europeu que dominam a cidade, o Botanique não é alternativa. É o oposto. Se quiser conhecer a história completa do projeto, a Dona Arquiteta já dedicou um artigo inteiro ao Botanique.
Onde fica: Rua Elídio Gonçalves da Silva, 4000 – Bairro dos Mellos – Campos do Jordão – SP
Acessibilidade: O hotel ocupa um terreno montanhoso com topografia irregular e algumas acomodações possuem escadas, o que limita o acesso para pessoas com mobilidade reduzida.
Reservas em: Booking.com
Cristalino Lodge: a Páscoa mais improvável e, por isso, a mais inesquecível


Em 1990, quando o mundo ainda debatia se a Amazônia tinha valor econômico, Vitória Da Riva comprou 700 hectares de floresta no norte do Mato Grosso e decidiu conservá-la através do turismo de luxo. Não havia modelo. Ela inventou um.
Hoje a reserva tem 11.399 hectares, área seis vezes maior que a ilha principal de Fernando de Noronha. A arquitetura dos bangalôs foi desenvolvida pela filha Adriana Da Riva entre 2005 e 2015 em madeira certificada de manejo, com estruturas elevadas do solo, brises que controlam luz e ventilação
e banheiro semi-aberto com vegetação tropical integrada ao piso de seixos.
Cem por cento da energia vem de painéis solares. A National Geographic Traveller elegeu o Cristalino entre os 25 melhores ecolodges do mundo.




O que diferencia este refúgio de Páscoa de todos os outros desta lista acontece fora dos bangalôs. A Fundação Ecológica Cristalino, criada em 1999 e financiada em parte pelas diárias, já catalogou 1.356 espécies vegetais e seis novas para a ciência nas trilhas percorridas pelos hóspedes. Você volta diferente porque, de fato, contribuiu com algo. A floresta prova isso o tempo todo: araras no café da manhã do deck flutuante sobre o rio,
trilhas com especialistas em fauna amazônica, torres de observação para ver o dossel acordar ao amanhecer.
Onde fica: Estrada 1ª Vicinal Leste, s/n – Zona Rural – Alta Floresta – MT
Acessibilidade: O lodge é acessível apenas por 25 km de estrada de terra seguidos de 30 minutos de barco pelo Rio Cristalino; os bangalôs são elevados do solo e as atividades acontecem em trilhas na floresta, o que torna o espaço inadequado para pessoas com mobilidade reduzida.
Reservas em: Site oficial
Como escolher o refúgio certo para a sua Páscoa
A escolha depende menos do orçamento e mais do que você quer trazer de volta:
| Se você quer… | Vá para… |
|---|---|
| Intimidade e descoberta de um lugar novo | Bowi Hotel Conceito, Tiradentes (MG) |
| História, jardins e gastronomia Michelin | Casa Marambaia, Petrópolis (RJ) |
| Arquitetura autoral e spa de alto nível | Botanique Hotel, Campos do Jordão (SP) |
| Transformação real e contato com a Amazônia | Cristalino Lodge, Alta Floresta (MT) |
Todos os quatro têm ocupação alta na Páscoa. O Cristalino, em especial, costuma esgotar com meses de antecedência. Se a data importa, a reserva não pode esperar.
Vale a viagem. E o planejamento.
A melhor Páscoa não precisa ser a mais distante nem a mais cara. Precisa ser aquela que você ainda consegue descrever com detalhes em maio. Os quatro hotéis desta lista têm projeto com alma, materiais com história e escala humana suficiente para que o lugar entre na memória de verdade. Escolha o seu, reserve com antecedência, e deixe o resto do ano esperar.
Referências:
- Bowi Hotel Conceito
- Casa Marambaia
- Botanique Hotel
- Cristalino Lodge























