Imagine essa família alemã, da Berlim de 1962, que se muda para seu novo apartamento no Gropiusstadt, bairro famoso que leva o nome do renomado arquiteto Walter Gropius, ninguém menos que o fundador da Bauhaus, o homem que havia redefinido o design moderno. O nome estava nas paredes, na planta, no orgulho de quem mostrava o endereço para os parentes.
O apartamento tinha luz natural, ventilação, aquecimento central e até vista para o gramado. Era tudo que os cortiços de antes não tinham. E não era qualquer projeto, afinal estamos falando de um bairro assinado pelo maior arquiteto vivo da Alemanha, o gênio que acreditava que um espaço bem projetado podia mudar uma vida.
Dez anos depois, essa família ainda está lá. O nome Gropius ainda está na placa. O gramado existe, ainda que ninguem mais arriscasse usar à noite. O bairro, no entanto, nem de longe era mais o mesmo e se tornou um símbolo tão poderoso do fracasso urbano que uma moradora adolescente escreveu um livro sobre crescer ali. Nada de nostalgia e sim um relato de dependência química e abandono que chocou a Alemanha inteira.
Essa trajetória, da utopia urbana à desolação, é uma das marcas mais dolorosas da arquitetura modernista quando aplicada à habitação social. Ela se repetiu em cidades tão diferentes quanto St. Louis, Amsterdã, Berlim, Caracas e São Paulo. E em quase todos os casos, havia um arquiteto famoso na origem. Um gênio com um plano.
O que aconteceu?
Para entender o fracasso, é preciso entender a ambição.
No pós-Segunda Guerra, as cidades europeias e americanas estavam em colapso e não faltavam problemas:
Os governos precisavam de solução rápida para dar morandia a milhões de pessoas e não demorou muito para que os arquitetos modernistas aparecessem com uma resposta pronta.
O maior nome era o suíço Le Corbusier que dizia (sem cerimônia) que “a casa é uma máquina de morar”. Para ele, habitar era uma questão de engenharia. A moradia ideal era aquela com a luz certa, a ventilação certa, a circulação certa e o projeto certo. Os espaços deveriam ser calculados matematicamente para maximizar eficiência e decoração era quase um crime. Só o essencial tinha vez.
Em 1952, ele inaugurou em Marseille a sua grande obra, a Unité d’Habitation. Um bloco de 17 andares com 337 apartamentos, telhado com academia e piscina, lojas internas, creche. Uma cidade dentro de um edifício. A imprensa chamou de revolucionário. Os governos do mundo inteiro ficaram de olho.
Não podemos dizer que o projeto de arquitetura modernista em si foi um fracasso, mas sim que o problema começou quando ele, que funcionava como experimento para uma população (muito) selecionada, não funcionou quando replicado em massa, sem curadoria, sem recursos e sem a devida continuidade.
E nem de longe foi o único caso. Vamos conhecer alguns projetos que também fracassaram:
O caso mais famoso, e também o mais simbólico, aconteceu em St. Louis, Missouri, EUA.
Em 1954, a cidade inaugurou o Pruitt-Igoe: 33 edifícios de 11 andares, projetados pelo arquiteto Minoru Yamasaki (o mesmo do World Trade Center), para abrigar 10.000 pessoas. Janelas grandes, corredores que deveriam funcionar como ruas elevadas, espaços verdes no térreo. Tudo de acordo com as melhores práticas da arquitetura modernista.
Em dez anos, o conjunto era o lugar mais temido de St. Louis. Crime, vandalismo, delinquência. Os corredores que deveriam ser “ruas” eram passagens escuras sem comércio nem movimento, perfeitos para emboscadas e não para vida comunitária. A classe média branca havia abandonado St. Louis em direção aos subúrbios, levando consigo os recursos fiscais que financiavam a manutenção.
Em 1970, dois terços dos apartamentos estavam vazios.
Em 1972, o governo decidiu implodir os edifícios. As câmeras de televisão registraram tudo. A comoção foi tamanha que rendeu até uma frase bem polêmica e icônica na época:
“A arquitetura moderna morreu em St. Louis, Missouri, em 15 de julho de 1972, às 15h32 (ou por volta disso) quando o infame projeto Pruitt-Igoe, ou melhor, vários de seus blocos de apartamentos, receberam o golpe final de dinamite”.
Charles Jencks
Na Alemanha, o fundador da Bauhaus deixou seu próprio legado problemático.
Walter Gropius projetou um bairro, o Gropiusstadt, para Berlim Ocidental no final dos anos 1950. O plano original era generoso, com edifícios de no máximo 5 andares, muitas áreas verdes e muito espaço para respirar. Infelizmente, em agosto de 1961, o governo da Alemanha Oriental construiu o Muro de Berlim.
A crise habitacional se aprofundou de tal modo e velocidade que o Gropiusstadt foi redimensionado e isso foi feito às pressas. Os cinco andares viraram 30 para dar lugar aos 19.000 apartamentos que atenderiam 50.000 moradores. O projeto de Gropius havia sido tomado e deformado pela urgência política.
O resultado foi um bairro que se tornou sinônimo de desolação urbana. A política habitacional garantia que apenas famílias de baixa renda pudessem morar ali, e que as que melhorassem de vida fossem expulsas por aumento de aluguel. A classe média nunca ficou.
Em 1978, a moradora Christiane F. publicou Wir Kinder vom Bahnhof Zoo (Nós, os Filhos da Estação Zoo), um relato brutal sobre dependência química entre adolescentes criados no Gropiusstadt. O livro virou fenômeno de vendas e documentou o que nenhuma estatística conseguia capturar. O vazio humano que aqueles edifícios produziam.
Em Amsterdã, os planejadores foram ainda mais ambiciosos.
O Bijlmermeer foi apresentado em 1965 como a “cidade do ano 2000”, com 13.000 apartamentos em 31 edifícios hexagonais, separação total entre carros e pedestres, amplas áreas verdes e garagens privadas. Uma obra de engenharia social sem precedentes.
O primeiro problema chegou antes da inauguração. Os moradores começaram a ocupar os edifícios antes das lojas, campos esportivos e equipamentos comunitários estarem prontos. O segundo problema veio em 1975, quando a independência do Suriname gerou uma migração em massa para a Holanda. O governo então alocou esses imigrantes no Bijlmermeer, aprofundando a concentração de pobreza.
Em 1983, a taxa de vacância era de 25%. Em 1995, havia 20.000 registros de crime por ano.
A pá de cal veio em 4 de outubro de 1992, quando um Boeing 747 da El Al perdeu dois motores e colidiu com dois edifícios do conjunto, matando 43 pessoas. É, até hoje, o pior acidente de aviação da história holandesa e aconteceu dentro do bairro. Ou seja, foi a tragédia dentro da tragédia.
A recuperação do Bijlmermeer só começou quando as autoridades pararam de reformar e passaram a demolir. Foi algo gradual e seletivo, foram substituindo os edifícios altos por casas de escala menor, melhorando o transporte e misturando deliberadamente diferentes faixas de renda. Foram mudanças que rapidamente geraram grandes mudanças e, em 2005, os registros de crime já haviam caído 60%.
Se a arquitetura modernista havia falhado, o brutalismo chegou para tentar outra vez. E errar também.
O brutalismo surgiu nos anos 1950 como uma radicalização da arquitetura modernista e era facilmente identificado em projetos com forte presença do concreto aparente, das formas massivas e da recusa absoluta do ornamento. Aliás, o nome vem do francês béton brut, que significa concreto bruto e foi uma expressão cunhada pelo próprio Le Corbusier. A estética era intencional: foco na honestidade dos materiais, sem disfarces.
Apesar dessas diferenças estéticas, a ambição social era a mesma de usar a arquitetura para transformar a vida da classe trabalhadora.
Dessa época, dois projetos se destacam:
Em 1972, o casal de arquitetos Alison e Peter Smithson entregou em Londres o seu projeto mais ambicioso. O Robin Hood Gardens, no East End.
O conceito central era poético. O nome que deram ao projeto, “Streets in the Sky”, já dizia tudo. Ruas no céu. Galerias abertas em cada andar que deveriam reproduzir a vida das vielas operárias do East End, mas em versão vertical. Os moradores se encontrariam, conversariam, criariam comunidade. Assim como nas ruas de antes, mas sem os carros e sem a sujeira.
O que os Smithson não consideraram foi que ruas reais têm movimento porque têm destinos. Têm comércio, têm bares, têm gente entrando e saindo. As “ruas no céu” eram apenas corredores longos sem nada além de portas de apartamento. Sem movimento, sem vigilância natural, sem razão para estar ali além de passar.
Em pouco tempo, os corredores tornaram-se pontos de encontro para quem não devia estar ali. Em 2015, o governo decidiu pela demolição, que foi acontecendo paulatinamente até se encerrar em 2025. Uma parede foi salva e exposta no Victoria & Albert Museum, relíquia de uma utopia que não se sustentou.
Na periferia de Paris, no Seine-Saint-Denis, uma das regiões mais pobres da França, o conjunto Les 4000 foi construído nos anos 1960 para abrigar quatro mil famílias operárias.
Foi outro grande projeto que fracassou e entregou (ainda mais) segregação racial e social. Não demorou para que a criminalidade fosse associada aos blocos sem controle de acesso, causando uma deterioração progressiva. A diferença é que, ao contrário de Pruitt-Igoe, não houve uma demolição simbólica e definitiva.
Houve quarenta anos de demolições parciais. Um bloco aqui, outro ali. Renovações. Intervenções. O processo ainda não terminou. A demolição do último grande edifício, o “Mail de Fontenay”, está programada para 2028. Seis décadas após a construção, o problema ainda não foi resolvido.
A arquitetura modernista e o brutalismo não foram experiências exclusivamente europeias. Na América Latina, o mesmo modelo foi importado com os mesmos resultados, agravados por contextos políticos ainda mais instáveis.
Na Venezuela dos anos 1950, o ditador Marcos Pérez Jiménez queria mostrar ao mundo que seu país era moderno. Para isso, contratou o melhor. Carlos Raúl Villanueva, o arquiteto venezuelano mais celebrado de sua geração, o mesmo que projetou a Cidade Universitária de Caracas, hoje Patrimônio da Humanidade pela UNESCO. Villanueva liderou o Taller de Arquitectura do Banco Obrero e, inspirado diretamente na Unité d’Habitation de Le Corbusier, projetou o 23 de Enero, na época chamado “2 de Diciembre”, erguido entre 1955 e 1957 com 38 super blocos para 60 mil pessoas.
No dia 23 de janeiro de 1958, Pérez Jiménez foi derrubado. No mesmo dia, mais de quatro mil apartamentos foram invadidos por populações vindas de outros bairros. No final, a data da queda do ditador passou a ser o nome do conjunto habitacional.
Muitos foram os motivos que levaram ao fracasso do projeto original. As famílias, vinham do interior com hábitos rurais, mantiveram o hábito de criar galinhas, porcos e cabras mesmo em apartamentos de 50 metros quadrados. A adaptação nunca foi completa e, com o tempo, gangues passaram a controlar partes do complexo.
O conjunto ainda teria protagonismo na história venezuelana em dois outros momentos. Em 1989, o conjunto foi epicentro do Caracazo, os protestos populares que abalaram a Venezuela. E, em 1992, Hugo Chávez organizaria sua tentativa de golpe de estado a partir dali.
No final, o bairro planejado para ser vitrine do progresso tornou-se símbolo de tudo que o Estado não conseguiu fazer.
No México, o arquiteto Mario Pani construiu entre 1960 e 1964 o Conjunto Nonoalco-Tlatelolco, com 102 edifícios e 12.000 apartamentos. A proposta, de ser “a utopia do México sem cortiços” não era ordinária. O projeto previa, basicamente, uma cidade dentro da cidade, com escolas, hospitais e até teatro.
Como comenta o colunista e urbanista Drew Reed para o The Guardian, o lugar não tinha sido escolhido ao acaso. A região tinha sido o palco de uma das batalhas mais sangrentas do período colonial mexicano e o governo queria passar uma borracha nesse passado, inaugurando uma nova era de progresso.
Infelizmente, a má condução do projeto e novas tragédias marcaram o endereço. Em especial, as ocorridas em 1968 e 1985.
A Plaza de las Três Culturas, dentro do complexo, foi o palco do Massacre de 2 de outubro de 1968, quando o governo reprimiu um protesto estudantil às vésperas das Olimpíadas, deixando um saldo de centenas de mortos.
Em 1985, um terremoto destruiu o edifício “Nuevo León” e abalou outras estruturas. Isso não impediu que novas famílias chegassem e o tecido social do conjunto, que já era frágil, se desfez ainda mais.
O lugar ainda marcaria as manchetes mexicanas no novo milênio. Em 2019, 55 anos após a inauguração, os elevadores instalados em 1964 ainda estavam em operação usando peças antigas, com reposição inexistentes no mercado: uma moradora caiu do 13º andar quando o elevador falhou.
Na mesma época e no Brasil, a história da arquitetura modernista ‘para as massas’ tomou um caminho diferente, mas não menos trágico. Aqui, os grandes arquitetos foram deliberadamente deixados de fora.
Em 1963, um ano antes do golpe militar, Oscar Niemeyer e Vilanova Artigas participaram do Seminário de Habitação e Reforma Urbana e apresentaram propostas de arquitetura modernista para enfrentar a crise habitacional brasileira. Niemeyer era o autor de Brasília. Artigas, o fundador da FAU-USP. Ambos tinham ideias concretas sobre como construir bem e em escala.
Com o golpe de 1964, essas propostas foram descartadas. O governo militar criou o Banco Nacional da Habitação (BNH) como instrumento de política econômica e controle social, não como projeto arquitetônico. A prioridade era quantidade, velocidade e financiamento. Arquitetura se tornou detalhe.
As Cohabs (Companhias de Habitação) estaduais e municipais construíram conjuntos por todo o país sem autoria notável, sem planejamento urbano integrado e sem consulta a quem iria morar ali. O resultado foi previsível.
A Vila Kennedy, no Rio de Janeiro, foi construída com financiamento americano como modelo de substituição de favelas. Ficava entre a área rural de Campo Grande e as indústrias de Bangu, longe de tudo. Os moradores removidos de favelas perderam suas redes de vizinhança, seus pontos de comércio, seus vínculos comunitários. O que ganharam foi um apartamento de alvenaria a duas horas de transporte público do centro.
O Conjunto Rubem Berta, em Porto Alegre. As Cohabs de São Paulo. O padrão se repetia. Distância da cidade, ausência de equipamentos, deterioração progressiva, estigma definitivo.
O fracasso europeu havia sido o de arquitetos geniais demais e arrogantes demais. O fracasso brasileiro foi o oposto. Conjuntos habitacionais erguidos sem nenhum arquiteto, com os mesmos resultados.
Em 1986, o BNH foi liquidado. Os problemas ficaram.
Seria fácil culpar os arquitetos. Alguns deles eram arrogantes, sim. Le Corbusier especialmente não era conhecido pela humildade. Mas a resposta real é mais complexa e permite aprender mais.
Os arquitetos modernistas e brutalistas que projetavam habitação social acreditavam em algo chamado determinismo arquitetônico. A ideia central era que o espaço físico determina o comportamento humano. Se ambientes ruins produzem comportamentos ruins, então ambientes bons produziriam comportamentos bons.
Bastava projetar o espaço certo.
E havia uma base para essa crença. Os cortiços do século XIX eram insalubres de fato. Ventilação, luz natural e espaço tinham impacto real na saúde pública. Os arquitetos extrapolaram, com boa-fé, o que tinham visto funcionar.
O problema é que design não resolve desigualdade econômica. Não resolve desemprego, discriminação, falta de educação ou abandono do Estado.
Pruitt-Igoe não falhou porque os corredores eram largos demais. Falhou porque o governo cortou os recursos de manutenção, porque o racismo criou ilhas sociais na cidade e porque ninguém ficou responsável pela gestão do dia a dia.
O Bijlmermeer não falhou porque era hexagonal. Falhou porque foi entregue incompleto, porque 16 associações habitacionais diferentes brigavam pela gestão, porque o governo alocou migrantes em massa sem nenhum suporte de integração.
Os conjuntos brasileiros não falharam porque tinham muitos andares. Falharam porque foram construídos no meio do nada, sem transporte, sem comércio, sem escola, e então abandonados pelo Estado que os criou.
Havia outro problema estrutural que os projetos ignoravam. A escala inumana criava anonimato. Quando você tem 50.000 vizinhos, no final você não tem nenhum.
O controle social informal, aquele que acontece naturalmente quando vizinhos se conhecem, quando a senhorinha da esquina vê tudo, quando o dono do bar sabe quem mora ali, simplesmente desaparece em blocos de 30 andares.
Jane Jacobs escreveu um livro bem interessante chamado A Morte e a Vida das Grandes Cidades em que já apontava que o que torna uma rua segura não é a largura do calçadão ou a qualidade do asfalto. Na realidade são coisas muito mais cotidianas:
A arquitetura modernista zoneou as funções em setores separados e eliminou exatamente isso.
A reflexão não é que arquitetura não importa. É exatamente o contrário. O que esses casos mostram é que o espaço construído tem impacto real na qualidade de vida, na saúde mental, no senso de pertencimento e até na dinâmica de criminalidade.
O que falhou foi a arrogância de acreditar que arquitetura bastava.
E aqui está a prova de que o problema não era a arquitetura modernista em si. Era a forma como foi aplicado.
No Rio de Janeiro, o arquiteto Affonso Eduardo Reidy, com participação essencial da engenheira Carmen Portinho, projetou o Conjunto Habitacional do Pedregulho (1947-1952). Mesmo modernista, mesmo com blocos elevados e linguagem corbusiana, o Pedregulho funcionou. E ainda funciona. A diferença estava nos detalhes humanos. Uma escola integrada ao conjunto, uma lavanderia coletiva, uma piscina pública, um ginásio. Espaços que faziam as pessoas desejarem estar ali. O Pedregulho passou por décadas de abandono público e críticas, mas sobreviveu. Hoje é patrimônio tombado e referência mundial em habitação social.
Inclusive, fica aqui uma dica de documentário bem legal sobre o projeto e o impacto dele na vida da comunidade do Pedregulho:
Em São Paulo, Lina Bo Bardi projetou o vão livre do MASP (1968). 74 metros de concreto suspenso sobre a Avenida Paulista, criando um espaço público por baixo do museu que pertence à cidade e não ao edifício. Também modernista, também em concreto bruto. Mas com uma diferença fundamental: Lina projetou para as pessoas, não para a forma.
O vão do MASP é, até hoje, um dos espaços públicos mais democráticos e vivos do Brasil, palco de feiras, protestos, abraços e encontros de todo tipo.
Esses dois exemplos brasileiros mostram que o fracasso dos grandes conjuntos não estava na estética da arquitetura modernista. Estava na ausência de escuta, na escala que esmagava, na gestão que nunca chegou, no Estado que construiu e abandonou.
O que esses arquitetos geniais não souberam fazer, ou não quiseram, foi humildade. A humildade de reconhecer que nenhum projeto, por mais elegante no papel, substitui as pessoas que vão viver nele.
O fracasso desses projetos de habitação social nos diz algo fundamental sobre a arquitetura modernista. Espaços que não respeitam o ser humano acabam sendo abandonados pelo ser humano. Não importa o talento de quem projetou ou qualquer prêmio que tenha ganhado, e menos ainda a beleza da maquete.
O que importa é se as pessoas que habitam aquele espaço se sentem vistas, acolhidas e pertencentes a ele.
Essa lição vale para os grandes conjuntos habitacionais, e vale igualmente para cada projeto de arquitetura de interiores.
A diferença entre um espaço que funciona e um que não funciona raramente está na estética. Está em saber quem vai viver ali, como vai viver, do que precisa, o que valoriza.
Os grandes arquitetos do século XX queriam salvar o mundo. Faltou perguntar ao mundo o que ele queria.
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Leia também:
referências
“Bijlmer (City of the Future, part I)”, por Katie Mingle para o 99 Percent Invisible
“Clássicos da Arquitetura: Robin Hood Gardens / Alison e Peter Smithson”, de Fernanda Brito para o ArchDaily
“Reports of modernism’s death turned out to be greatly exaggerated”, por Catherine Slessor para a Dezeen Magazine
“Cidade de Gropius completa 50 anos em Berlim”, por Andrea Kasiske para a Deutsche Welle
“Comunidad 23 de Enero” em CCS Caracas del valle al mar.
“The tragedies of Mexico City’s Tlatelolco housing complex – a history of cities in 50 buildings, day 31”, por Drew Reed para o The Guardian
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