A Fondazione Querini Stampalia está instalada em um palácio histórico em Veneza, que pertencia a uma família nobre da cidade, onde você pode observar salões mobiliados e mesas postas, como na época em que o local era habitado, além de conhecer a coleção de porcelanas e de obras de arte datadas entre os séculos XIV e XX.
O edifício foi construído em uma área atravessada pelos canais da cidade, sujeita a inundações, uma condição que teve um importante papel nas intervenções arquitetônicas posteriores à construção do palácio. Ele abriga uma extensa biblioteca, com mais de 350 mil exemplares, incluindo livros e mapas de diferentes épocas e lugares.
A Fondazione Querini Stampalia é um dos destinos que recomendamos para todo entusiasta de design viajando pela cidade e, nesta matéria, te contamos um pouco sobre este lugar incrível e como o seu projeto de reforma, conduzido por Carlo Scarpa, trabalhou uma estratégia bem criativa para lidar com a acqua alta.

Como Carlo Scarpa fez as pazes com a acqua alta
Um dos grandes desafios de Veneza é lidar com a questão da acqua alta, as marés excepcionalmente altas que invadem as construções.
Em Veneza, os pisos térreos dos edifícios à beira dos canais podem ser frequentemente afetados pelo aumento do nível da água, gerando situações como inundações que facilmente deterioram a estrutura do pavimento. Por isso, os projetos precisam unir arquitetura às marés para criar prédios seguros sem interferir na natureza.



Diante desse cenário, o arquiteto Carlo Scarpa, chamado para conduzir o processo de renovação da Fondazione Querini Stampalia em 1959, criou uma coreografia hidráulica para lidar com essa situação.
Scarpa desenvolveu um mecanismo em que a água entra por grades e elementos vazados junto ao canal e é conduzida pelo espaço, no qual o arquiteto usou materiais como ferro e bronze. Comportas metálicas e lajes irregulares de pedra da Ístria criam um espaço onde a maré pode ser vista e registrada.
A transformação arquitetônica não teve como intuito proteger a construção da água, mas adequá-la às condições do canal. Além disso, essa intervenção fez com que a água que entra no térreo do edifício se tornasse uma superfície refletora que, ao longo do dia, apresenta diferentes nuances de luz e cor.

Inclusive, você pode visitar a Fondazione Querini Stampalia na época da acqua alta de Veneza, que ocorre com mais frequência entre outubro e dezembro, e conhecer a solução de Scarpa para as marés altas típicas da cidade.

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O projeto de Scarpa não se restringiu a solucionar a questão da acqua alta. O arquiteto também foi responsável por outras reformas na Fondazione Querini Stampalia, que não aboliram o estilo original da construção, mas trouxeram melhorias e modernidade para o edifício.
No hall de entrada o arquiteto reinterpretou o conceito de portego veneziano trabalhando com materiais como painéis de travertino, lajes de concreto, corrimão de latão e iluminação em vidro opaco. Ele também projetou as pontes internas em dois níveis, conectando o palácio ao espaço de exposições do museu.
O jardim apresenta o mesmo conceito, com a presença de muros de concreto e de materiais como mosaicos, latão e cobre. O ambiente conta com uma fonte feita a parecer uma ruína, abstrata, onde a água se move lentamente e destaca o diálogo entre arquitetura e as marés.

Posteriormente, entre 1982 e 1997, o arquiteto Valeriano Pastor, que trabalhou junto com Scarpa na década de 1950, ficou à frente de um projeto de expansão e renovação. Este segundo projeto pode ser percebido, principalmente no terceiro e no quarto andar, onde foram instalados os novos escritórios administrativos.

Pastor também criou uma passarela de ligação entre a biblioteca e seus novos depósitos e uma porta de metal e madeira no jardim, uma espécie de homenagem ao design de uma das portas projetadas por Scarpa.
Mario Botta: o aluno que costurou o palácio de volta à cidade
O arquiteto Mario Botta foi aluno de Scarpa, e quando foi chamado para renovar a Fondazione Querini Stampalia em 1994, transformou seu projeto em uma homenagem ao antigo mestre, o que pode ser percebido na escolha do profissional por utilizar as técnicas arquitetônicas de Scarpa, conferindo uma sensação de continuidade ao edifício.
Um exemplo é o projeto do térreo, onde foram incorporados painéis nas paredes para melhorar a ventilação, uma solução já adotada por Scarpa em outros projetos.
Entre as modificações mais relevantes feitas por Botta, está a transferência da entrada principal para o Campo Santa Maria Formosa e a intervenção no pátio Mazzariol. Ele elevou o piso e cobriu o pátio medieval utilizando um material envidraçado que permitiu a entrada da luz natural.
Graças a essa nova cobertura, que criou um espaço protegido, Botta conseguiu organizar no primeiro pavimento todos os serviços do museu, como bilheteria, livraria, cafeteria, área infantil e guarda-volumes.
O aluno de Scarpa ainda concebeu um auditório de 132 lugares, que é um exemplo de arquitetura moderna em Veneza, e introduziu novas escadas e elevadores no museu.


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A Fondazione Querini Stampalia é um dos museus mais antigos da cidade e, além de ter um grande acervo com peças raras, ainda é um exemplo de preservação histórica e arquitetônica e de como os arquitetos adaptaram a construção ao fenômeno da acqua alta.
Se você está procurando o que fazer em Veneza, considere conhecer esse museu. Caso você queira presenciar a maré alta, consulte os boletins de maré da cidade antes de agendar sua visita.
Quando for visitar a Fondazione Querini Stampalia, aproveite para conhecer o bairro Castello, um dos mais antigos da cidade, com suas ruas estreitas, igrejas antigas e campos venezianos, um lugar ideal para quem deseja fazer uma pausa durante o roteiro de arquitetura por Veneza. Veja abaixo o horário de funcionamento de cada setor do museu:
- Coleções e exibições: terça a domingo das 10h às 18h, com bilheteria aré às 17h30h.
- Biblioteca: terça a sexta das 10h às 20h; sábado e domingo das 10h às 19h.
- Livraria: terça a domingo das 10h às 18h.
- Cafeteria: terça a domingo das 10h às 19h.
O ingresso individual custa 15 euros. Contudo, o museu também oferece visitas guiadas a partir de 80 euros. Para mais informações, acesse: Fondazione Querini Stampalia — Guided Tours.
Se você gosta de dicas de viagem que unem design, arquitetura e história, continue no site Dona Arquiteta para conferir mais dicas de passeios, e aproveite para ler o nosso post: 12 lugares mais bonitos da Itália.
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referências
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