Amsterdã, nos Países Baixos — A ambição é desmedida e não pede desculpas. A fundação holandesa Shift quer erguer em Roterdã um marco ecológico que rivalize com o papel da Torre Eiffel na Revolução Industrial.
Don Ritzen, líder da iniciativa, defende que gráficos climáticos e discursos alarmistas já não mobilizam a sociedade; o mundo precisa de símbolos físicos capazes de devolver a esperança.
O concurso internacional atraiu 80 escritórios e o escritório vencedor foi o MVRDV, de Winy Maas, ao lado do designer Joris Laarman e da engenharia da Arup. A equipe superou nomes de peso como Heatherwick Studio e Mecanoo.

Batizado de Rotterdam ROCKS!, o complexo ocupará 30.000 m² no distrito de Waterkant, na margem sul do rio Maas, na área do antigo projeto do estádio do Feyenoord, hoje pausado.
O desenho rompe com a silhueta clássica de prédio: o programa distribui-se em duas torres interligadas, esculpidas como uma formação de sete blocos maciços que imitam rochas cobertas de musgo e árvores nativas.



Por dentro, o conjunto reunirá um hotel de 200 quartos, centro de convenções, restaurante plant-based e o Elysium, museu imersivo de 5.000 m² voltado a narrativas ecológicas. Pelo exterior, o projeto ainda prevê uma trilha pública serpenteando pelas rochas até o mirante na cobertura, transformando a fachada em parque vertical escalável.

Assunto relacionado
Copenhagen lidera transformação mundial em turismo regenerativo através do programa CopenPay pioneiro
Por Claudia Vianna Birolini
O choque estético e a conta do carbono
A resposta pública nas redes (e também fora dela) não foi tão boa.
O histórico do MVRDV alimentou a desconfiança. Em 2021, o escritório entregou em Londres o Marble Arch Mound, monte artificial temporário que virou piada internacional quando a grama secou logo após a abertura, gerando rombo orçamentário e fechamento precoce.
No projeto holandês, o choque com a realidade construtiva já começou a podar excessos já que, segundo Catherine Slessor, do The Guardian, o plano da monumental cachoeira que descia pelas pedras nas primeiras maquetes já foi discretamente abortado.
A verdadeira disputa é ecológica. No portal Dezeen, o historiador da arquitetura Barnabas Calder disparou sem rodeios que espalhar plantas na fachada não torna um prédio ecológico, assim como jogar uma folha de manjericão num bife não o transforma em prato vegano.
Calder apontou que a promessa de usar concreto com escória industrial e aço reaproveitado é pura ilusão de soma zero, pois desviar insumos sustentáveis já escassos apenas obriga outros canteiros a consumirem cimento virgem.
Além disso, o pesquisador ironizou a conta de carbono da Shift: a entidade promete salvar emissões inspirando cidadãos, mas ignora as trinta e cinco milhões de toneladas de carbono geradas pelos voos dos turistas atraídos até ali.
Do fetiche verde ao laboratório vivo
Ainda assim, o traço de Winy Maas dialoga com um dilema bem vivo nos tempos modernos da profissão. Nas últimas décadas, a biofilia urbana focou bastante em pendurar vasos em varandas de torres envidraçadas e o Rotterdam ROCKS! descarta esse modelo.
O projeto abandona a fisionomia de edifício e finge ser um acidente geológico, ocultando prumadas e centrais de ar-condicionado sob uma pele terrosa.
Ainda mais interessante é a abordagem do escritório quanto ao método construtivo. O MVRDV propõe transformar o canteiro em laboratório aberto, publicando em tempo real as técnicas de baixo carbono que derem certo e, sobretudo, as que falharem durante os trabalhos.
Ao assumir o erro em praça pública, a equipe troca o dogma do monumento impecável pela honestidade do experimento.
A postura se encaixa na tradição de Roterdã. Desde que foi destruída na Segunda Guerra, a cidade fez da ousadia estética sua bandeira, abrindo alas para as Casas Cubo de Piet Blom, as torres colossais de Koolhaas e o depósito espelhado do próprio MVRDV.
O projeto, contudo, ainda não é uma sentença definitiva. A proposta passa por uma fase de refinamento técnico antes do processo de participação pública local agendado para o outono de 2026, o que pode alterar aspectos centrais da planta.
E qual sua opinião? Acredita que o Rotterdam Rocks tem fôlego para se firmar como uma maravilha mundial holandesa? Comenta aqui.

Assunto relacionado
Guia de Amsterdã: principais atrações da cidade
Por Carolina Martins
referências
- “Plants on a building doesn’t make it sustainable, any more than a basil leaf on a steak makes it vegan”, escrito por Barnabas Calder em Dezeen.
- “Climate-saving wonder – or €240m vanity bauble that ages like milk? The rocks set to hit Rotterdam docks”, escrito por Catherine Slessor em The Guardian.
- “Rotsachtig megagebouw in Rotterdam-Zuid moet bezoekers aansporen tot ‘duurzamer leven’”, escrito por Siem Buijsse em de Volkskrant.
- “MVRDV wins international architecture competition for ‘Shift Embassy’ in Rotterdam”, escrito pela equipe editorial do MVRDV em MVRDV.
- “Dit groene megagebouw van 240 miljoen moet Rotterdam internationaal op de kaart zetten”, escrito por Marjolein Kooyman em AD.nl.






