Namibia

Wilderness Desert Rhino Camp: o design que some na paisagem

Avalie esta matéria

O Wilderness Desert Rhino Camp foi erguido para cumprir a difícil missão de impedir a extinção do rinoceronte-negro.

O rinoceronte-negro, cuja pele é mais próxima do cinza do que do preto propriamente dito, facilmente ultrapassa uma tonelada de peso em quase dois metros de altura e impõe medo aos não acostumados, principalmente pelo segundo chifre pontiagudo e proeminente, marca registrada desta subespécie (Diceros bicornis bicornis). É capaz de sobreviver até 4 dias sem água, uma adaptação essencial numa região seca como Damaraland, onde as melhores projeções apontam média de no máximo 100mm de chuva ao ano.

Gigantesco e adaptado, o rinoceronte-negro reinaria em seu território se não fosse a caça predatória, focada em extrair seu chifre que (não raro) chega a valer mais que seu peso em ouro no mercado ilegal.

Em 1982, quando os fundadores do Save the Rhino Trust chegaram à região, havia menos de 30 indivíduos vivos. Após décadas de trabalho conjunto entre comunidades locais, governo namibiano e organizações de conservação, a população se recuperou e parte desse resultado passa, literalmente, pela existência deste camp.

Para a viajante com interesse em design e materialidade, é difícil encontrar destino que concentre tanto em tão pouco espaço. A nova versão, reaberta em 2024 com arquitetura do escritório sul-africano Migs+Drew e interiores de Cate Simpson, parte de uma premissa rara na hotelaria de luxo. O espaço deve servir ao ecossistema, não se impor sobre ele.

E o silêncio que isso produz é, por si só, uma experiência de design.

Exterior da tenda na paisagem de pedras. Foto: Wilderness Destinations (reprodução)

De quem estamos falando

O Desert Rhino Camp é um tented camp de safári de luxo operado pela Wilderness, rede fundada há mais de 40 anos que administra mais de 60 camps em 8 países africanos, de Botsuana a Ruanda.

Longe de ser uma propriedade isolada do contexto regional, ele funciona como base operacional do Save the Rhino Trust (SRT), uma ONG fundada em 1982 pelo casal Blythe e Rudi Loutit ao descobrir que a população de rinocerontes na região havia caído para menos de 30 indivíduos.

A ideia da ONG ia na contramão no que se esperava na época. Ao invés de combater os caçadores, a SRT lhes deu a chance de tirar riquezas do outro lado desta luta: protegendo a funa local como guardas e rastreadores.

O Desert Rhino, em específico, fica dentro da concessão Palmwag, em Damaraland, no noroeste da Namíbia — uma das regiões mais remotas do continente africano.

Vinte anos depois dessa parceria entre Wilderness e a SRT, e mais de dois anos de obras, o camp reabriu em agosto de 2024 com uma nova arquitetura, novos interiores e o mesmo propósito.


Design e conceito

Os arquitetos Migs+Drew (Miguel Ferreira da Silva e Andrew Payne) voaram ao Desert Rhino Camp pela primeira vez em 2019. A imagem que os impactou de imediato foi um tapete de pedras vermelhas cobrindo o chão em todas as direções. Aquela visão se tornaria a fundação do projeto ao usar aquela pedra de basalto, já disponível no terrenoe eliminar a necessidade de transporte de materiais. Mais do que uma decisão logística, o foco estava em criar uma continuidade visual entre a construção e o relevo ao redor.

O resultado parte de três materiais em diálogo permanente:

  • As paredes espessas de pedra local, recolhida e assentada à mão por trabalhadores das comunidades locais, ancoram as construções e funcionam como regulador térmico passivo;
  • Sobre elas, armações leves de madeira elevam as suítes do solo, tocando a terra apenas nos pontos de apoio estrutural.
  • Por cima de tudo, coberturas de lona tensionada com grandes beirais protegem os espaços do sol sem fechar a vista para o horizonte.

A engenharia têxtil das membranas ficou com a Tenthouse Structures, responsável pela modelagem paramétrica e simulação ambiental de cada forma orgânica. O resultado são silhuetas angulosas que repetem os contrafortes das montanhas Etendeka ao entardecer. Não como gesto cenográfico, mas como resposta direta às condições climáticas do lugar.

Lounge ao ar livre com fogueira no centro do acampamento. Foto: Wilderness Destinations (reprodução)

A curadoria de interiores é de Cate Simpson, da Reflecting Africa. Ela definiu a paleta a partir da terra vermelha e dos afloramentos de basalto para chegar a tons de terracota profundo, cinza vulcânico, ocre e bege areia, pontuados por verdes que evocam a vegetação nas nascentes da região.

Os sofás de tamanhos generosos são preenchidos com almofadas bordadas pela Threads that Bind Us, marca sul africana de decoração artesanal. Criada pelas irmãs Emma and Leila Rowett, pintam e costuram a mão cada uma das peças, inspiradas pela vegetação e botânica nativas. Para o projeto de Simpson, trouxeram ao tecodo os motivos de gramíneas e montanhas da região.

As cerâmicas vidradas de Anthony Shapiro, espalhadas em luminárias e vasos pelo lounge e pela mesa de jantar, capturam as texturas e cores do campo. O mobiliário foi produzido quase integralmente na Namíbia.

Sala de estar interna com vista para a savana. Foto: Wilderness Destinations (reprodução)

Nas fotos, um detalhe biofílico chama atenção. No lounge semiaberto, se vê é uma árvore nativa emergindo pelo deck de madeira e pela cobertura de lona, como se a estrutura tivesse cedido espaço a ela e não o contrário. Seja como for, o gesto me parece resumir a lógica do projeto inteiro.

Lounge social com árvore nativa integrada. Foto: Wilderness Destinations (reprodução)

Acomodações

São seis suítes de lona especial e pedra local, incluindo uma unidade para famílias com capacidade para quatro pessoas. O número reduzido é parte da proposta, já que o camp mantém o impacto sobre o ecossistema sob controle e preserva a intimidade da experiência.

Interior da suíte. Foto: Wilderness Destinations (reprodução)

Cada suíte combina armação de madeira termicamente isolada, paredes de pedra, piso maciço de tábua corrida e fechamentos de alumínio e vidro deslizante.

A cobertura dupla de lona, com câmara de ar entre as camadas, funciona como isolante para as noites frias do deserto, cuja temperatura pode cair abruptamente depois do pôr do sol. Numa das suítes, a cabeceira de cada traz a fotografia em grande escala de rinoceronte-negro em sépia, âncora visual que conecta o conforto das suítes à razão de existência do camp.

Noite sob o céu estrelado. Foto: Wilderness Destinations (reprodução)

A varanda privativa de cada unidade é o mirante particular do hóspede. Cadeiras estilo diretor com estrutura de madeira e assento em lona crua, mesa bistrô e o silêncio do deserto. A programação necessária começa e termina aí.

Comida e bebida

A cozinha é comandada pelo Chef Timotheus Namwandi, que ancora o cardápio na produção local. Pratos como o Lamb Potjie, ensopado de cordeiro cozido em panela de ferro sobre brasa viva, e o Prime Beef grelhado na chama funcionam como embaixadores da cozinha namibiana.

São refeições ao ar livre, com a fumaça do fogo como tempero extra.

Mesa de café da manhã. Foto: Wilderness Destinations (reprodução)

Os jantares costumam acontecer sob o céu aberto, em torno da fogueira central do camp. Os almoços durante os rastreamentos mais longos são montados diretamente na paisagem selvagem pelos rastreadores do SRT, que aproveitam a parada para contar histórias sobre os rinocerontes do território. É, na prática, a refeição mais memorável da estadia, quando os rinocerontes passam a se integrar a narrativa da viagem.

Área de refeições. Foto: Wilderness Destinations (reprodução)

O bar tem balcão ripado em madeira clara e uma empena de pedras de basalto empilhadas artesanalmente. A Wilderness eliminou as garrafas plásticas do camp.

Bem-estar

O camp tem piscina de imersão circular escavada no deck principal, com acabamento escuro que tinge a água de verde mineral. Para desacelerar depois de horas rastreando rinocerontes no sol de Damaraland, funciona bem.

O deck com piscina circular com vista para a savana. Foto: Wilderness Destinations (reprodução)

A estrutura é enxuta, então não espere spa, serviços de massagem, academia ou aulas de yoga. Se esses serviços são determinantes para a escolha, vale procurar um hotel mais convencional.

Região e experiências

Damaraland é um dos cenários mais surreais da África. O terreno vulcânico de basalto vermelho, os cânions de arenito cor de tijolo e as montanhas Etendeka formam uma paisagem que parece anterior à civilização. Não há cidades próximas, não há tráfego e, dependendo da época do ano, tampouco há sinal de celular.

Veículo de safári na savana ao entardecer. Foto: Wilderness Destinations (reprodução)

A atividade central é o rastreamento de rinocerontes-negros a pé, conduzido pelos rastreadores do Save the Rhino Trust. A concessão é dividida em zonas de monitoramento, e o SRT rotaciona as áreas de visitação de forma que cada rinoceronte individual seja avistado apenas cerca de três vezes por mês.

O objetivo é fazer com que os sequer percebam a presença dos visitantes e por isso o protocolo é desenhado para minimizar estresse e perturbação, com a aproximação deste gigantes sempre feitas afavor do vento, com distância controlada.

Área de convívio com fogueira. Foto: Wilderness Destinations (reprodução)

A programação complementar inclui os safáris dentro do 4×4, trilhas de observação de fauna menor e saídas de observação de aves. Tudo ao redor da fauna, que é muito diversa e abraça girafas, zebras-de-hartmann, gemsboks, springboks, kudus, e eventualmente cheetahs e leopardos.

Não é raro encontrar elefantes adaptados ao deserto.

Para famílias?

O camp disponibiliza uma suíte familiar entre as 6 unidades. A experiência, no entanto, é orientada por natureza para viajantes com capacidade de manter foco e silêncio durante as caminhadas de rastreamento, que podem durar o dia inteiro em terreno irregular e calor intenso.

Para famílias com adolescentes interessados em conservação, natureza e fotografia, o Desert Rhino Camp vale a pena. O contato direto com os rastreadores do SRT, a narrativa por trás de cada rinoceronte individual do território e a vastidão de Palmwag funcionam como experiência formadora de perspectiva.

Para crianças, a idade mínima geralmente praticada é de 6 anos. Menores de 16 anos não participam do rastreamento a pé e famílias com crianças costumam ter veículo privativo reservado.

Sustentável?

O camp tem credenciais verificáveis, não apenas declarações de intenção. A energia é 100% solar, com sistema de 25kW e gerador de backup. As estruturas antigas foram desmontadas e reaproveitadas integralmente como moradia do staff. A pedra da construção veio do próprio terreno, eliminando transporte de materiais e a pegada de carbono.

O modelo de negócio também importa. 11% da receita total do camp é repassada para as conservâncias locais e o SRT — percentual que, segundo dados de 2022 divulgados pela Wilderness, superava o lucro líquido do camp nos cinco anos anteriores. Isso atenua um bocado a lógica usual do ecoturismo, em que a conservação aparece como item de comunicação e não como pilar financeiro.

Acessibilidade

Não recomendamos para pessoas com deficiências ou mesmo dificuldades de locomoção. O Desert Rhino Camp está em uma concessão extremamente remota, sobre terreno vulcânico irregular. Suas estruturas são elevadas sobre decks de madeira e as atividades principais, como o rastreamento a pé, exigem resistência física considerável.

Foto: Wilderness Destinations (reprodução)

Na entrada do camp, um gráfico cortado a laser em chapa de aço exibe os dados históricos de população de rinocerontes-negros no território da conservação. Ao lado, um mapa entalhado à mão em madeira mostra a extensão completa do habitat sob proteção. São dois objetos que não servem como decoração. São argumento visual. Quem passa por eles antes de entrar no camp já entende, sem que ninguém precise explicar, por que aquele lugar existe e o que está em jogo.

Para uma viajante que sabe ler um espaço, essa escolha diz muito sobre o projeto como um todo e fica claro que a estética aqui não disfarça nada. Ela evidencia.

Foto: Wilderness Destinations (reprodução)

referências

Fernando França

Formado em Gestão Empresarial, apaixonado por Design, escritor por vocação. Fernando tem mais de 7 anos de experiência gerenciando e desenvolvendo negócios na área de Gastronomia. Eterno pesquisador de tendências, devora informações sobre projetos que unem estética, função, empatia e sustentabilidade. Veio ao projeto Dona Arquiteta para contribuir com o que pode haver de melhor sobre o assunto.

Postagens recentes

Procurando dica de viagem para Mykonos? Selecionamos 7 para você!

Dicas Essenciais para Sua Viagem a Mykonos

3 dias atrás

Destinos conscientes redefinem celebrações de fim de ano no Brasil e no mundo

Turismo consciente impulsiona crescimento de 85% em destinos sustentáveis para celebrações de fim de ano

4 dias atrás

Modernismo e Brutalismo em São Paulo: 6 marcos da arquitetura paulistana

De 1928 a 1989, um roteiro por seis obras icônicas que revelam a disputa entre…

4 dias atrás

Fondazione Querini Stampalia: design, história e acqua alta em Veneza

Na região do Campo Santa Maria Formosa, próximo à Piazza San Marco, fica a Fondazione…

6 dias atrás

Reverie Kalahari Pod: dentro das dunas vermelhas da Namíbia

O Reverie Kalahari Pod é um dos lugares mais fora do comum que já apareceram…

1 semana atrás