Para comemorar os três quartos de século de sua inauguração, a exposição na Casa de Vidro abre suas portas ao público com um convite intimista. Intitulada “Janelas de Afeto e Memória”, a mostra celebra os 75 anos da primeira obra construída de Lina Bo Bardi, ficando em cartaz até 5 de dezembro de 2026.
Em vez de uma solenidade, a visitação pretende tratar o casarão como um organismo, cujas paredes translúcidas continuam em bom papo com a floresta que brotou junto de seus pilares.
Sob a curadoria de Bruno Simões e a expografia de Giancarlo Latorraca, o percurso evita a frieza dos memoriais para destacar a força poética de um lar que continua em mutação.
Uma pioneira moderna e a exposição na Casa de Vidro
Nascida em Roma e radicada no Brasil a partir de 1946, Lina Bo Bardi renovou o pensamento cultural do país ao lado do marido, o jornalista e galerista Pietro Maria Bardi.
Juntos, eles chegaram a São Paulo para estruturar o MASP, trazendo a convicção de que a arte deveria conviver livremente com o público. Essa postura orientou toda a produção da arquiteta, sempre empenhada em aproximar o arrojo técnico da riqueza popular brasileira.
Essa busca ganhou forma pioneira na própria residência do casal, concebida em 1949 no então despovoado loteamento do Morumbi. Erguida como estúdio e morada temporária para professores de arte, a construção acabou se tornando o endereço definitivo dos Bardi por mais de quatro décadas. Ali, entre reuniões com artistas e debates intelectuais, germinaram ideias que ajudaram a redesenhar a identidade cultural da capital paulista.

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Por Fernando França
Do croqui esquecido aos vinis da sala
O percurso envolve o visitante por 5 eixos que articulam o rigor técnico à intimidade doméstica da família Bardi.
Entre os projetos exibidos, está estante envidraçada da biblioteca, peça desmontada nos primeiros anos da residência e agora refeita a partir dos croquis originais. O móvel vem acompanhado de clássicos consagrados do mobiliário da casa, como a poltrona Bowl e a cadeira Bola de Latão.
Essa inventividade material convive com registros delicados do dia a dia, visíveis nas cartas particulares dos moradores e na coleção de 180 vinis, acessível pelo celular por meio de códigos digitais espalhados pelas salas.
Na cozinha, fotos tiradas por Lina retratam eletrodomésticos modernos como símbolos da autonomia feminina de sua época. A mostra também expões o olhar de dez fotógrafos prestigiados, entre eles Nelson Kon e Bob Wolfenson, registrando novos ângulos da Casa.
O grande charme da visita é que o próprio casarão não serve só de cenário e se integra à exposição. Ao caminhar pelas salas transparentes, é possível notar cada canto da casa conversando com os documentos expostos, misturando a vista das árvores no jardim com as memórias preservadas nos cômodos.
Essa experiência aproxima o público da rotina real dos moradores, quebrando a distância comum das galerias tradicionais.
Essa atmosfera acolhedora ganha ainda mais força com a presença de esboços de ampliações que nunca saíram do papel e a lembrança dos encontros com amigos ilustres como Glauber Rocha, John Cage e Gilberto Gil. Longe de qualquer rigidez cerimoniosa, permanece no visitante o sentimento afetuoso de cruzar a sala de anfitriões generosos que apenas se ausentaram por instantes, deixando as portas abertas aos amantes da cultura.
Informações e visitas
A Casa de Vidro fica na Rua General Almério de Moura, 200, no Morumbi, em São Paulo.
A mostra pode ser visitada de quinta-feira a sábado, com entradas programadas entre 10h e 15h30. O acesso é organizado em pequenos grupos guiados, sendo necessário agendar o ingresso com antecedência pela página oficial do Instituto Bardi.
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referências
- “Mostra celebra a arquitetura da Casa de Vidro, primeira construção de Lina Bo Bardi”, escrito por Matheus Rocha em Folha de S.Paulo.
- “Casa de Vidro, marco modernista de Lina Bo Bardi, completa 75 anos”, escrito por Ana Mércia Brandão em Bravo!.
- “Casa de Vidro, de Lina Bo Bardi, celebra 75 anos com exposição gratuita”, escrito por Adan Neto em Casa e Jardim.







