MAM-BA: Museu de Arte Moderna da Bahia
Salvador

MAM-BA: Museu de Arte Moderna da Bahia

Escrito por Carolina Martins | Publicado em:

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Quando Lina Bo Bardi chegou ao Solar do Unhão pela primeira vez, em 1958, o casarão colonial do século XVII servia de depósito de combustíveis.

Ela decidiu restaurá-lo ali mesmo e passou dois anos tentando convencer o governo baiano a deixá-la fazer isso. Conseguiu. Entre 1959 e 1963, transformou o antigo entreposto portuário sem demolir nada do que estava lá e sem fingir que o passado não existia.

O MAM-BA é o principal museu de arte moderna da Bahia e também um dos mais relevantes do Brasil. Projetado pela arquiteta Lina Bo Bardi, esteve inicialmente instalado no Teatro Castro Alves antes de fixar residência no Solar do Unhão, conjunto que se tornou um dos cartões postais mais conhecidos de Salvador. 

Este artigo conta o que Lina fez ali, por que fez e o que aquele museu representa fora do eixo Rio-São Paulo. No final, o que você precisa saber para planejar a visita.

O que é o Solar do Unhão e o que Lina fez nele 

O Solar do Unhão é um conjunto de edifícios históricos de Salvador que foi erguido no século XVII, com uma estrutura semelhante a das antigas fazendas de cana de açúcar, com uma residência principal, uma capela e a senzala. Com características da arquitetura colonial portuguesa, as edificações estão ao redor de um pátio interno e são carregadas de elementos tradicionais de construção.

Fachada colonial caiada com portas vermelhas e casarão histórico restaurado por Lina Bo Bardi no mam ba em Salvador.
Foto: Carlos Reis (reprodução)

O casarão tem paredes de pedra e arcos de tijolo no térreo. São três pavimentos, com os serviços embaixo, os antigos espaços aristocráticos no primeiro andar e os criados acima.

Na ponte de quatro arcos que dá acesso ao andar nobre, painéis de azulejos barrocos de Lisboa, produzidos em meados do século XVIII, ainda revestem os parapeitos. No jardim você ainda encontra a fonte de cantaria escura com uma carranca esculpida na pedra. Um cais de pedra fecha o conjunto pelo lado do mar.

Ponte de acesso com azulejos portugueses e fachada colonial com portas vermelhas de Lina Bo Bardi no mam ba em Salvador.
Foto: Carlos Ebert (reprodução)

O lugar já serviu de fábrica de rapé, depósito de combustíveis e serraria (esta última, inclusive, instalada dentro da própria igreja). É tamanha a sua importância que foi tombado em 1943 como Bem Cultural Nacional pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN), mas infelizmente isso não conteve sua degradação até o final dos anos 1950.

E foi no final desta década que o então governador da Bahia, Juracy Magalhães, convidou a arquiteta italiana, naturalizada brasileira, Lina Bo Bardi, para implementar um museu de arte moderna na Bahia. Quando ela chegou, a estrutura de pilares e vigas de madeira do século XVII ainda estava de pé, soterrada sob as adaptações industriais.

Lina retirou tudo o que havia chegado depois e devolveu ao conjunto o espaço e as proporções que sempre teve. A vista para a baía voltou. Diante de inúmeras intervenções de resgate e adaptação, a única escolha nova foi pintar as janelas de vermelho.

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O detalhe da escada de encaixe

A primeira coisa que o visitante encontra ao entrar no casarão é uma escada de madeira que sobe em espiral no centro do salão. Ela é grande, densa e tem presença. Ainda assim, o que a torna especial nem está na forma, está na sua técnica.

Escada helicoidal de madeira com encaixes tradicionais no salão restaurado por Lina Bo Bardi no mam ba em Salvador.
Foto: Casa de América (reprodução)

A escada não usa pregos nem parafusos nos encaixes principais, foi montada da mesma forma que carpinteiros do sertão nordestino montavam os carros de boi, com peças que se encaixam umas nas outras e ficavam travadas por cunhas de madeira, sem metal nos nós. Cada degrau de ipê maciço encaixa na viga, a viga no pilar central de pau-d’arco, e o conjunto fica firme só pela pressão dos encaixes.

Lina Bo Bardi escolheu manter a técnica porque colocar o saber dos marceneiros populares do Nordeste no centro de um museu de arte moderna era uma declaração política na época. A escada ilustra a cultura popular e ao mesmo tempo a aplicava.

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A relação com o MASP

Lina Bo Bardi começou a esboçar o edifício da Avenida Paulista em 1957, pouco antes de desembarcar em Salvador. Durante quase uma década, as duas empreitadas dividiram a prancheta da arquiteta, embora seguissem lógicas arquitetônicas opostas.

Em São Paulo, a exigência de preservar a vista panorâmica do mirante do Trianon obrigou o museu a flutuar sobre a calçada. Essa restrição exigiu uma solução de engenharia pesada, com vigas colossais e quatro pilares de concreto protendido vencendo mais de 70 metros de vão livre.

No Solar do Unhão, a escala não dependia da força bruta da engenharia moderna, mas do diálogo com a história e com o mar. Diante de uma ruína colonial degradada, Lina desacelerou para compreender a alvenaria do século XVII, provando que um museu de arte contemporânea podia nascer integrado à rotina dos saveiristas (os marinheiros das embarcações a vela tradicionais da baía) e dos locais.

A convivência com o artesanato e a cultura material da Bahia transformou a postura da arquiteta em relação ao espaço público. Essa vivência reapareceu pouco depois na própria capital paulista, quando Lina decidiu fixar as pinturas em cavaletes transparentes de vidro para aproximar as telas das pessoas. E mais tarde, quando converteu uma fábrica abandonada de tambores no Sesc Pompeia.

Peso institucional + acervo

O MAM-BA é o terceiro museu de arte moderna mais antigo do país e ajudou a colocar a Bahia no centro do mapa cultural, longe do monopólio do Rio de Janeiro e de São Paulo.

Só que Lina Bo Bardi não queria apenas pendurar quadros em paredes brancas e sua ideia era erguer um museu misturado com escola, voltado para a comunidade e atento às raízes populares da região. Tanto que a inauguração do casarão aconteceu no final de 1963 com a mostra “Civilização do Nordeste”.

Essa proposta incomodou os setores mais conservadores e logo virou alvo do regime militar. Poucos meses depois, com a censura, o exército interveio no Solar do Unhão e Lina acabou demitida do cargo, revelando como a instituição nasceu no calor de uma disputa política.

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Mesmo com esse corte forçado no plano original de Lina, o museu seguiu em frente e hoje guarda quase 1.300 obras fundamentais para a história da arte brasileira. Nas salas do casarão, o público caminha lado a lado com pinturas de Tarsila do Amaral, Candido Portinari e Di Cavalcanti. Ao mesmo tempo, o acervo abre espaço de honra para quem traduziu a identidade baiana, caso de Carybé e de Rubem Valentim.

Essa experiência não fica presa ao interior do prédio. Do lado de fora, na descida que encosta no mar, a paisagista Rosa Kliass projetou em 1998 o Parque das Esculturas. Por ali, trabalhos de mestres como Mário Cravo Júnior e Mestre Didi convivem com a maresia e as árvores, contornados pelo famoso gradil de ferro desenhado por Carybé, que transformou formas de sóis e acarajés na moldura do jardim.

Gradil escultórico de ferro desenhado por Carybé recortado contra o mar e o céu no mam ba em Salvador.
Foto: Tereza Torres (reprodução)

Além das salas de exposição no Casarão, o complexo ainda conta com o Pátio do Pôr do Sol e o Pátio da Mangueira, que juntos ocupam uma área de mais de 2.500 m², e a Sala Rubem Valentim, onde estão expostas as obras deste importante artista baiano. 

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Informações práticas

A vocação que Lina sonhou para o Solar do Unhão continua viva no cotidiano do museu. No final da tarde, o píer de pedra vira um ponto de encontro espontâneo para assistir ao pôr do sol sobre a Baía de Todos os Santos. 

Píer de madeira do Solar do Unhão no mam ba com vista panorâmica para o mar da Baía de Todos os Santos durante o pôr do sol.
Foto: Fabio Brito (reprodução)

A instituição ainda conta com uma sala de cinema, um café e uma capela, que você pode aproveitar para conhecer durante a sua visita. Além do seu acervo composto por obras de artistas consagrados, como o projeto Jam no MAM, uma ação que une o jazz aos ritmos baianos e que costuma acontecer aos sábados a partir das 18h.

O MAM-BA fica na Avenida Lafayete Coutinho (a conhecida Avenida Contorno) no bairro do Comércio, Salvador. O horário de funcionamento é de terça a domingo, das 10h às 18h. A entrada é gratuita.

Quem viaja a Salvador encontra no Solar do Unhão uma daquelas raras paradas onde o patrimônio secular, a vanguarda do design e o mar da Bahia dividem naturalmente a mesma conversa.

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Além do MAM-BA, a capital baiana conta com muitas outras atrações que unem design, arte e cultura. Se você quer conhecê-las na sua próxima viagem a este destino, confira o nosso post: Um guia sobre o melhor da arquitetura em Salvador. 

Leia mais:

referências

*Atenção: Preços tomam como base a data de redação deste conteúdo. Podem sofrer alterações a qualquer momento e sem aviso prévio.

**A imagem de capa é de Capitu (ou Marcela) via Flickr.

Vogue 

Guia de museus 

Site oficial do Museu de Arte Moderna da Bahia 

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