Como Thomas Heatherwick quer combater o ‘design maçante’ das novas cidades britânicas

Como Thomas Heatherwick quer combater o ‘design maçante’ das novas cidades britânicas

Escrito por Fernando França | Atualizado em:

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No final de setembro de 2026, uma cena cristalizou de forma incontornável a gravidade da crise habitacional europeia: dona Maricarmen Abascal, de 87 anos e com mobilidade reduzida, sendo retirada em uma maca do apartamento onde viveu por sete décadas, no centro de Madri.

Ela morava no imóvel desde 1956, sob um contrato tradicional de valor estável, até o edifício ser adquirido por um fundo imobiliário de investimento, que elevou o aluguel para patamares inatingíveis para uma pensão regular. A ordem de despejo gerou indignação pública imediata, marchas massivas na capital espanhola e um acampamento permanente na Puerta del Sol, escancarando a fratura entre o custo de vida nas metrópoles e a permanência das pessoas em seus bairros de origem.

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Cruzando o canal da Mancha, o governo britânico optou por uma estratégia de escala monumental para responder à mesma pressão de escassez e custo de moradia.

Comprometida com a meta de entregar 1,5 milhão de habitações ao longo desta legislatura, a administração do primeiro-ministro Keir Starmer resgatou a tradição do pós-guerra e anunciou a criação e ampliação de 7 novas cidades planejadas (New Towns), sustentadas por um aporte público de até £16 bilhões através do recém-criado National Housing Bank.

É exatamente na intersecção entre essa urgência do Estado e a qualidade do ambiente urbano que vem se aquecendo o debate liderado por Thomas Heatherwick. O designer britânico anunciou uma parceria científica de £1,5 milhão para intervir diretamente no planejamento dessas futuras cidades, sustentando que a pressa governamental em produzir unidades em massa corre o risco iminente de replicar periferias áridas, desprovidas de alma e desconectadas da escala humana.

Beco de Omoide Yokocho em Shinjuku com izakayas e lanternas vermelhas, vizinhança tradicional impactada pela expansão do Airbnb.

A cruzada contra a “blandemic” e o manifesto de Heatherwick

Nascido em Londres e formado pelo Royal College of Art, Thomas Heatherwick comanda desde 1994 o Heatherwick Studio, escritório reconhecido por transitar entre o design, a escultura e a arquitetura.

Ao longo de sua trajetória, o criador britânico assinou marcos internacionais que misturam certa ousadia e apelo popular, como a Pira Olímpica dos Jogos de Londres 2012, os emblemáticos ônibus vermelhos Routemaster de nova geração, o parque flutuante Little Island em Nova York e o campus corporativo do Google em King’s Cross.

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Celebrado pelo virtuosismo no uso de materiais e frequentemente criticado por seu monumentalismo escultórico, Heatherwick transformou-se em uma das vozes mais provocativas e influentes do design contemporâneo.

Para entender sua atual cruzada urbana, é preciso conhecer os conceitos de seu livro Humanise: A Maker’s Guide to Building Our World (2023). Na obra, o designer articulou um manifesto contra o que denomina “blandemic”, uma epidemia global de uniformidade e esterilidade na arquitetura que tomou conta das cidades.

Vista panorâmica do Vale do Anhangabaú e Palacetes Prates em São Paulo em 1920, com jardins e Viaduto do Chá.

A crítica de Heatherwick é que, ao longo do último século, a arquitetura teria se submetido a uma interpretação reducionista do funcionalismo, privilegiando caixas ortogonais lisas, peles de vidro reflexivo e painéis metálicos uniformes. Nessa lógica, o foco se tornou exclusivamente a economia de materiais e a eficiência interna das plantas, abandonando o espaço público da calçada. O resultado é uma sucessão de fachadas impessoais que transformam as ruas em desfiladeiros monótonos, acentuando o estresse visual e o isolamento coletivo.

Contra o rigorismo geométrico de Le Corbusier, Heatherwick resgata a sensibilidade táctil e as formas orgânicas de Antoni Gaudí, defendendo que a arquitetura deve conter detalhes, sombras e materiais calorosos capazes de reter a atenção e o afeto de quem caminha pela rua.

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A parceria atual com a Universidade de Glasgow e o órgão de fomento estatal UK Research and Innovation (UKRI) pretende conferir rigor científico a essa tese. Por meio de investigações em neuroarquitetura e psicologia ambiental, a equipe quer quantificar as respostas emocionais e neurológicas provocadas por fachadas dotadas de complexidade visual versus superfícies lisas e neutras.

A meta é subsidiar gestores públicos e incorporadores com parâmetros objetivos para o desenho das novas cidades, partindo da premissa de que edifícios amados pela comunidade são mais preservados e possuem um ciclo de vida muito superior.

Galeria das David Geffen Galleries no LACMA com paredes terrosas e obras na inauguração de museus em 2026.

É o que falta para o Brasil?

A premissa de Heatherwick é que construir rápido e em escala produz exatamente a monotonia que ele quer combater. O Brasil já fez esse experimento. O Banco Nacional da Habitação (BNH) e boa parte do Minha Casa Minha Vida entregaram conjuntos habitacionais idênticos, sem calçada, sem praça, sem nada que retivesse a atenção ou o afeto de quem mora ali. O “blandemic” aplicado em massa, décadas antes do nome existir.

E o resultado não resolveu o problema. A Fundação João Pinheiro ainda estima 6 milhões de lares em déficit. O IBGE contou 11,4 milhões de domicílios vagos no Censo 2022, somando 18,1 milhões quando incluídos os de uso ocasional. Há quase o dobro de imóveis vazios para cada família sem teto digno. O problema não foi falta de construção, mas construção no lugar errado e no modelo errado. Esses conjuntos ficaram longe do trabalho, do hospital e do metrô, e o aluguel urbano, que consome mais de um terço da renda das famílias mais pobres, seguiu inacessível.

A resposta já existe nos centros das grandes cidades, em edifícios comerciais e hoteleiros vazios cercados de água encanada, luz e transporte público. O retrofit converte esses imóveis em apartamentos com uma vantagem que Heatherwick apreciaria: parte de estruturas com história, materiais com textura e fachadas que não nasceram genéricas. A arquitetura resolve a parte técnica, com rotas de incêndio, iluminação e ventilação adequadas. O design de interiores resolve a parte humana, pensando como fazer 40 m² funcionarem sem sufocar quem mora ali.

Não faltam cidades. Faltam políticas para ocupar o que já existe.

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